Bolsonaro e o Brasil
Imagem: Fabio Montarroios (flickr)
Sociedade

ELE pode ganhar, mas NÃO teria viabilidade de ficar

Uma análise do tabu dos soberanos sobre o fenômeno Bolsonaro

Em 1913, no célebre trabalho intitulado “Totem [e] Tabu”, Freud apresenta uma pesquisa (psico) antropológica da condição humana sob a perspectiva de dois itens elementares quando se trata da construção da cultura: o totem e o tabu.

Desde que o ser humano, em termos gerais, encontra-se, portanto, na esfera do que é falante, sexuado e mortal, a transferência atribui “humanidade” aos objetos, fazendo emergir hipoteticamente a volúpia pela dominação, pela apreensão. A conexão do totem, receptáculo das criações do imaginário, com o tabu, reação significativa e imediata causada pela dominação, pode ser vista em todos os campos e se espraia, por assim dizer, por todas as construções culturais e sociais. Na política, então, não poderia ser diferente.

Há mais ou menos um século, Hitler despontava como protagonista do perfil icônico dos alemães. Um pouco antes, Edward Bernays faria da comunicação social uma instituição fundada na descoberta da psique, elaborando com as contribuições da pesquisa psicanalítica de seu tio, Sigmund Freud, uma alavanca para o consumo de produtos (e políticos) nos Estados Unidos.

Não se pode dizer que a história é cíclica, mas parece ser algo dessa ordem, não em termos idênticos, só que por semelhança, já que muitas significações se repetem, novamente, por semelhança, no campo da movimentação política. Dentre muitas elucubrações na sua pesquisa de 1913, Freud vislumbra um tipo de tabu que é ligado aos governantes, ou soberanos, e discorre sobre isso, citando James Frazer: um soberano não deve apenas ser protegido, mas também se deve proteger-se dele. Essa citação aponta o fato de que indivíduos postos no lugar de soberano encontram-se na condição do inacessível e do perigoso. Isso remonta a inúmeros fatos da pesquisa antropológica, que demonstra a historiografia de povos que não podiam tocar em seus reis e sacerdotes. Nesse sentido, tais figuras eram sistematicamente isoladas do resto da comunidade.

Contrapondo-se à necessidade de proteger um soberano, como face oposta de um mesmo papel, ou superfície, fica evidente a questão da vigilância da população no que se refere ao uso adequado dos poderes concedidos a esse governante. Frazer, citado nesse trabalho freudiano, indica a fragilidade de um posto como esse, já que a permanência depende de uma conduta quase que totalmente fixada nos deveres imaginados pelo seu povo. Isso quer dizer que, eleito assim, um soberano deve preencher uma série de itens para que permaneça.

Não é difícil observar na eleição brasileira de 2018, um efeito de votação balizado por índices que revelam muita emotividade. O fenômeno Bolsonaro, como significação, coloca o indivíduo candidato numa posição clara dentro desse contexto do tabu dos soberanos. E, tendo em vista a vulnerabilidade do momento político, das condições políticas, culturais e de conduta do candidato Bolsonaro e, mais ainda, a conjuntura social de um país rachado por uma multidão de signos de disputa entre ideias (com pouquíssimos fundamentos realmente ideológicos), não seria considerável pensar friamente que um possível governo Bolsonaro estaria mergulhado numa precariedade tão grande que, num piscar de olhos, poderia ruir e nos colocar novamente no caminho da incerteza?

Sobre o autor/a autora

Felipe Bueno
Felipe Bueno
Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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