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Brasileiros no exterior, a saudade de casa e a tirania da família no Brasil

Brasileiros no exterior
Sobre quem sai do país e é tiranizado pela família no Brasil, ao invés de receber carinho e respeito.

Já escrevi (aqui) sobre uma brasileira que vive em Berlim, trabalhando duro com faxinas para manter a si e à filha, e que estava disposta a se endividar, tomando um empréstimo altíssimo para que seu irmão, no Brasil, pudesse comprar um carro. Dei-lhe o conselho de não fazer isso, pedi que ela pensasse em primeiro lugar em si mesma e no futuro da filha e que não se endividasse para satisfazer um desejo de um irmão adulto, que tem condições de caminhar com as próprias pernas, ganhar seu próprio dinheiro e comprar então o que quiser.

Pois bem, fiquei feliz ao saber que ela seguiu esse conselho, não tomou empréstimo algum e viajou para o Brasil sem levar os 15 mil euros que o irmão havia pedido. Mas infelizmente fiquei triste ao vê-la após seu retorno, pois a coitada se sentia arrasada. Ela disse não a um pedido absurdo do irmão, mas pagou por isso um preço muito alto, que foi se sentir rejeitada pela família e castigada da pior forma que uma família pode castigar: negando amor e carinho!

Segundo ela, o que mais doeu foi o comportamento da mãe, que já esteve em Berlim, que conheceu sua labuta, que viu de perto o quanto ela tinha que trabalhar, que sabe muito bem que a filha não é rica. Durante toda sua estadia, a mãe fez cara feia, dando-lhe indiretas, acusando-a de ser egoísta por viver na Europa, mas não ajudar o irmão a comprar o carro que ele tanto queria.

Já outra brasileira me contou uma história igualmente triste, desta vez sobre um sobrinho que lhe pedira para trazer um celular. E ela comprou um smartphone de última geração (se não me engano, um S5 da Samsung) e levou para o sobrinho, além de inúmeros outros presentes para o resto da família, tudo isso comprado com sacrifício, já que ela estava desempregada e dependia do marido alemão, que não ganhava muito.

Não foi fácil juntar o dinheiro das passagens e o casal teve que apertar mais ainda o cinto para atender a lista de presentes da família. Pois bem, alguns dias após a chegada e a distribuição dos presentes, ao visitar o irmão e sua família, ela se viu numa situação difícil, pois precisava falar com urgência com alguém, mas o próprio celular não funcionava.

Na maior ingenuidade, ela se dirigiu ao sobrinho, pedindo-lhe seu celular emprestado para fazer esse telefonema importante. Para sua surpresa, o rapaz se negou, disse-lhe que o telefone era dele e que não iria emprestar coisa nenhuma, em tom áspero e sem o mínimo respeito. Ela se chateou, brigou com o sobrinho e exigiu que ele lhe emprestasse o aparelho que ela mesma havia trazido, frisando que só precisava por alguns minutos. Nesse momento, a surpresa foi ainda maior, pois o irmão dela chegou à sala, deu razão ao filho e a colocou para fora, acusando-a de arrogância só por morar no exterior e dizendo-a que só voltasse à sua casa quando aprendesse a respeitar sua família.

Ela chegou chorando à casa dos pais e foi novamente surpreendida ao escutar deles que o irmão estava certo e que ela deveria pedir desculpas a ele. Por negar-se a fazer isso, ela passou o restante das férias no Brasil em um clima ruim, sem que ninguém da família conversasse direito com ela, sendo praticamente ignorada.

Não se trata de um caso isolado

Conheço tantos exemplos de tirania de famílias de emigrantes que poderia passar alguns dias escrevendo. Sim, conheço muitas histórias de parentes que maltratam os que saem do país quando eles se negam a continuar assumindo o papel do “emigrante rico”, que tem a obrigação de dar presentes e ajudar a todos financeiramente sem nunca reclamar.

Sei de casos de quem ajudou durante anos, mandando dinheiro para o Brasil, levando presentes, pagando contas e até mesmo sacrificando as férias e o descanso para resolver problemas pendentes, pegando filas, resolvendo coisas de tudo quanto é tipo e até mesmo abrindo negócios para parentes e financiando e coordenando obras ou reformas na casa de alguém, às vezes sem nem mesmo escutar um ‘muito obrigado’.

Muitas vezes, a questão não é (somente) de dinheiro. Os parentes acham que a pessoas vêm de férias para ficarem ouvindo lamentações o tempo todo, algumas até bizarras, como quem reclama de não poder pagar as contas, mas não deixa de tomar muita (!) cerveja nos fins de semana ou não perde uma praia nos domingos, ao invés de procurar um bico para ganhar um pouco mais. Mas quando então uma pessoa que vive no exterior, já cansada de trabalhar tanto para ajudar a família, um dia corta essa ajuda, por não poder e não querer mais, pode acontecer dela ser rejeitada, chamada de egoísta e escutando até parentes dizendo que ela é uma pessoa tão ruim que, apesar de “nadar em dinheiro”, nunca ajudara a família, anulando praticamente tudo que a pessoa fizera até então.

Sei até de casos onde se inventa uma “doença grave” na família só para arrancar dinheiro do migrante. Recordo-me de um brasileiro que me contou que sua família pediu-lhe três mil reais para pagar uma operação URGENTE do sobrinho, que havia caído e quebrado um braço. A operação até que foi real, mas os custos já tinham sido cobertos pelo plano de saúde, sendo necessário pagar somente 200 reais do próprio bolso.

A falta de vergonha é tão grande que até um suposto câncer é usado para extorquir quem está longe. E isso sem falar daqueles que foram de férias ao Brasil e terminaram sendo roubados dentro de casa pelos próprios parentes.

Tal tipo de comportamento parece ser algo bastante comum no Brasil, afetando muitos migrantes, não devendo ser subestimado, pois causa um profundo sofrimento em quem vive longe de sua terra natal, onde muitas vezes se sente só, desejando fortemente a proximidade e o amor da família, mas recebendo cobranças, pedidos e acusações, sempre que tentam ter um mínimo daquilo que qualquer pessoa deveria poder esperar de seus familiares: carinho e respeito.

Há migrantes que têm sorte, com uma família que apoia, que escreve ou liga regularmente para saber como estão, que “troca figurinhas” em redes sociais, que realmente se interessa por sua vida e que manda, apesar da grande distância, muito carinho e conforto.

Já outros se veem constantemente confrontados com cartas, chamadas telefônicas e e-mails de parentes que querem somente reclamar da vida e pedir algo. Enquanto alguns sabem o que é ser amado pelos seus, outros recebem somente uma forte tirania. Alguns são recebidos de braços abertos e com abraços apertados, enquanto outros se veem obrigados a “comprar” o carinho da família com malas pesadas e presentes caros, pois, caso contrário, sentem rapidamente na própria pele a crueldade dos parentes.

De onde vem essa tirania?

Uma família é sempre algo complexo, já que envolve diversos indivíduos, cada um com necessidades singulares. Normalmente são os pais os elos desses indivíduos, são eles que unem todos e definem, nem sempre conscientemente, o que é comum e são eles que traçam o caminho seguido pela família como coletivo, junto ao caminho individual de cada membro.

A família como grupo tem a função básica de garantir a sobrevivência de todos, ajudando, protegendo e amparando, educando e orientando, sendo que sua principal característica é (ou deveria ser) a solidariedade, algo benéfico para todos os membros. Mas isso muitas vezes não funciona como seria de se esperar, pela falta do pai (ou de uma figura paterna) ou da mãe (ou de uma figura materna) ou pelos pais serem “fracos” e não assumirem devidamente seu papel de liderança e união, ou, ao contrário, quando os pais são muito “fortes” (=dominantes), impondo a própria forma de pensar e o caminho coletivo, sem respeitar o caminho individual de cada um.

Fato é que qualquer distúrbio na forma dos pais guiarem a família reflete-se no comportamento de cada membro. Assim, quando um pai ou mãe (ou ambos!) abusa do mecanismo da solidariedade como arma para prender os filhos a si e/ou manipulá-los, para podar sua liberdade e até mesmo usufruir dos benefícios conquistados por cada um deles, isso faz com que outros membros da família assumam a mesma postura e que também os filhos abusem do conceito de solidariedade, transformando-o numa expectativa de ajuda de mão única, onde cada um busca primordialmente a satisfação dos próprios interesses.

O resultado disso é uma espécie de chantagem emocional generalizada, provocando uma consciência pesada em qualquer membro que resolva romper certos laços e “fugir da prisão”, seguindo o próprio caminho. Essa consciência pesada, enraizada nos filhos desde a infância, é a arma então utilizada pela família para “castigar” quem abandona o clã, deixando claro que essa “fuga” tem seu preço.

Aqueles que saem de uma constelação desse tipo e vão para bem longe terminam rompendo esse entrelaçamento, esse nó, querendo ou não. Pelo menos é assim que isso é visto pelos que ficam, que se sentem então “traídos” por aquele que se afasta, já que assim a casta deixa de ganhar com os benefícios alcançados por esse membro. E aí vem a cobrança (que nunca é dita em voz alta, mas que quem é cobrado sente!): você foi embora, então agora nos ajude, caso contrário, não lhe aceitaremos mais como um de nós!

Como não há um interesse real no bem-estar de todos, mas cada um, no fundo, só pensa em si, falta nessas famílias uma relação de amor e carinho autênticos, o que faz com as cobranças sejam feitas no nível material. Então, por conveniência, mas também por crueldade, aquele que abandona o clã para mudar de país é rapidamente taxado de rico, já que isso facilita a cobrança de ajuda financeira e presentes.

O problema aqui é que quem saiu nem percebe logo essa dinâmica, acredita ingenuamente no conceito de solidariedade ensinado pelos pais e termina apoiando tal postura através de sacrifícios feitos para ajudar ou agradar os que ficaram. A pessoa se sente obrigada a isso, nem cogita um comportamento diferente, já que família é família e tem que ser ajudada. Deixar de fazer isso significaria ter consciência pesada e sentir-se mal, já que alguém que não apoia a própria família é uma “pessoa ruim”.

Essa pessoa é então sugada literalmente por parentes e pode precisar de anos (ou mesmo de uma vida inteira) para perceber o que se passa realmente e que ela, apesar de ter saído de casa, indo viver milhares de quilômetros de distância, nunca se livrou do cabresto que recebeu de sua família e termina vivendo longe, mas presa de uma forma tirana por aqueles que nunca tiveram a mesma coragem e que agora a castigam por ter ido embora.

Com o passar dos anos, quando se percebe que, no fundo, é tratado com indiferença, com os familiares mais preocupados com presentes do que com sua pessoa, esse alguém se decepciona, sente-se triste e cansado e tenta reverter a situação, mas percebe rapidamente que isso não é tão fácil assim. O emigrante protesta, mas é severamente punido, sendo acusado, insultado e caluniado ou mais que isso: ele simplesmente passa a ser ignorado, que é o pior de tudo.

Veja as coisas como são!

E caso você se encontre em uma situação assim, o que poderia lhe ajudar seria a coragem de ver as coisas como são, por mais que isso doa, e compreender que laço sanguíneo nem sempre é sinônimo de carinho e respeito e que parentes não são necessariamente família.

Sim, olhe as coisas como são e talvez você reconheça que um ou outro parente gosta realmente de você e lhe respeita e que talvez existam outras pessoas que não têm o mesmo sangue seu, mas que são muito mais sua família do que seus parentes.

Não gaste seu tempo e sua energia querendo convencer ninguém de que ele está errado, de que não está certo ele lhe tratar como lhe trata. Isso só lhe prenderá ainda mais. Você vai tentar ter razão para aliviar sua consciência, mas quanto mais você tentar, mas pesada ela ficará, já que as acusações e a apelação da família ficarão cada vez mais absurdas. Eu sei que a situação é injusta, mas entre justiça e equilíbrio, é melhor escolher o equilíbrio.

Centre-se, faça as pazes consigo mesmo, perdoe os parentes que lhe tratam de forma injusta, mas liberte-se de qualquer consciência pesada e mantenha uma distância saudável de pessoas assim. Sua família continuará sua família, deixe as portas abertas, mas peça para as pessoas baterem antes de entrar, lhe respeitando como ser humano e lhe enxergando como alguém que tem uma vida própria e que gostaria que o princípio de solidariedade valesse para todo mundo e que você também tem suas carências e necessidades.

Por que você deveria perdoar até mesmo quem não merece? Porque você merece.

Deixe claro que você está disposto a partilhar, mas que partilha só faz sentido quando todo mundo participa. Família é o lugar onde deveríamos encontrar aconchego, amor, compreensão, carinho, com ou sem dinheiro, com ou sem presente, na verdade sem condição alguma.

Talvez você tenha a sorte de ter uma família unida, carinhosa, amiga, mas se isso não for assim, permita sua tristeza, sim, pois isso dói, mas fique aberto para as alegrias que outras pessoas lhe dão. Se sua família lhe dá o sentimento de se estar só, então encontre sua família verdadeira: aquelas pessoas que realmente amam você e querem o seu bem

 

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1 comentário

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  • Outro dia levantei uma questão parecida com esta num grupo de brasileiros de Mannheim. Na verdade, falei da culpa de NÃO sentir a mínima saudade. Mas tinha a ver exatamente com o que tu levantou aqui. Teu texto tá perfeito! Poderia conversar horas sobre isso. Ah, descobri que no meu caso a realidade não se tornou ruim pela mudança para cá. Esta mudança só serviu para me abrir os olhos. Valeu pela bela reflexão!


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