sexta-feira, 5 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
Início Comportamento A zona de conforto não é um lugar de onde fugir. É onde todos desejam estar mas ninguém assume.

A zona de conforto não é um lugar de onde fugir. É onde todos desejam estar mas ninguém assume.

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Negue. Pode negar. Negue que, vez em quando, tudo o que você quer é se sentir um pouquinho mais confortável na vida. Não precisa muito. Só um cadinho mais de aconchego neste mundo tão duro e aborrecido. Negue. Tem problema, não. Melhor engolir o discurso comum, engrossar o coro e negar o que você sente lá dentro para não fazer inimigos. Para que ser do contra, né?

É que o mundo inteiro adora culpar a tal zona de conforto por tudo. Atreva-se a pensar diferente e o mundo inteiro vai deixar você no vácuo. Melhor guardar esse sentimento estranho aí dentro. Melhor deixá-lo quietinho. Você sabe, ahh… você bem sabe que as coisas não são bem assim como dizem. Mas é melhor ninguém saber que você sabe.

Que ninguém nos ouça, mas eu não sei quem foi que inventou essa história de confundir conforto com estagnação, conformismo, preguiça, sujeição, imobilidade, servidão e toda sorte de adjetivos negativos. Por conta dessa invenção medonha o conforto virou pecado, sinônimo de preguiça, e “zona de conforto” virou o lugar onde só permanecem os fracos, os indecisos, os medrosos, os medíocres e os miseráveis. E dá-lhe generalização!

O sujeito não consegue mudar de emprego? É porque está preso em sua zona de conforto. O casamento vai mal e nenhum dos dois envolvidos toma uma atitude? Zona de conforto. A moça que sonha viajar pelo mundo recebeu uma proposta de emprego e desfez as malas? Maldita zona de conforto! Aquele seu parente desistiu de largar tudo e abrir uma barraca de suco na praia? Pobrezinho. Cedeu à tentação da zona de conforto e decidiu manter seu emprego de segunda a sexta.

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Poderosa, essa zona de conforto! Gruda a gente no chão e não deixa ninguém voar. Provoca todos os nossos males, assassina nossos sonhos. Sacrifica nossa liberdade. É o que dizem aqui e ali a massa de gurus de recursos humanos, terapeutas, benzedeiras e afins.

Mas será que é isso mesmo?

A zona de conforto não é um lugar de onde fugir. É onde todos desejam estar mas ninguém assume.


Será que o sujeito que abandona o emprego “confortável” e sai de mochila nas costas rumo ao mundo o faz pensando em se sentir desconfortável? Ou será que o maior desconforto dele é justamente o emprego que ele decide largar?

Será verdade que um casal em processo de separação decide sair de sua zona de conforto, o casamento, porque a segurança e a estabilidade do lar não passam de uma chatice? Será que é porque não aguentam mais tanta felicidade conjugal, não suportam o conforto da boa convivência e então decidem buscar um pouco de dúvida e agonia e infelicidade na separação?

Ou será que, na verdade, o casamento falido, o amor desaparecido, a relação desgastada, os planos diferentes de um e outro, tudo isso se juntou e virou um desconforto total? Logo, a separação é nada senão uma tentativa honesta de buscar, de um lado e de outro, algum novo conforto na vida.

Pensando assim, a gente foge mesmo é da nossa “zona de desconforto”. E não o contrário. O que o mundo decidiu chamar de “zona de conforto”, então, não é o local de onde todos devemos sair. É o lugar onde todos desejamos estar!

Além do mais, não há um canto no espaço chamado “zona de conforto”. Há instantes confortáveis que a gente persegue e só conquista à custa de muito desconforto! É a sexta-feira esperada que só chega porque sobrevivemos aos outros dias da semana. São as férias que vêm como recompensa de tanto trabalho suado. É o sonho que só se concretiza depois de muita realidade. O conforto merecido a quem não tem medo do desconforto da vida.

Aquilo então que todos chamam de “zona de conforto” é só uma mentira, uma invenção, uma bobagem. Mas que ninguém nos ouça. Isso ninguém precisa saber.


 

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A autora/o autor:

André J. Gomes
André J. Gomeshttp://www.revistaletra.com.br/
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.
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