Confissão ou sobre nomes, ilhas e cus
Imagem:  shutterstock/Asier Romer
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Confissão

Uma conversa sincera e direta com o Criador, uma confissão de quem busca redenção e orientação por não entender os rumos tomados pela humanidade.

Deus, todo poderoso, me perdoe, pois pequei. Não acho que você se importe, e talvez este seja meu primeiro pecado, mas eu não tenho sido uma boa pessoa. Não tenho seguido seus decálogos, até porque não sei qual o de sua preferência, se é o de Moisés, o do compêndio dos católicos, dos ortodoxos, dos protestantes ou dos adventistas. Na dúvida, preferi ficar quieto, já que, aparentemente, a escolha errada pode me condenar por toda eternidade.

Porém, Senhor, mesmo não seguindo teus mandamentos, gostaria de buscar redenção perante teus olhos e, quem sabe, uma possível orientação. Eu não consigo amar o próximo. Já tentei de tudo, mas é impossível. Hermes ensina que todos somos um, interligados pela essência do criador. E Jesus, em sua herança mais importante, diz que devemos amar o outro como amamos a nós mesmos, o que me leva a crer que fazemos parte do mesmo pacote. Amar o próximo é me amar. Em grande plano, eu e o Joãozinho somos a mesma coisa, não é mesmo? Contudo, Pai, sei que deve ser difícil ai de cima, mas você já tentou enxergar as coisas em pequeno plano?

Eu e o Joãozinho não temos nada a ver. Absolutamente nada. Olhar para ele me enoja. Ele nunca tentou entender nada ao seu redor, nunca questionou ou estudou, simplesmente aceitou como definitivo o que seus pais lhe falaram e tornou isso sua arma (a propósito, os pais dele sabem mais sobre Deus do que qualquer um, se tiver alguma dúvida sobre si mesmo, pergunte a eles). Ele despreza os homossexuais, maltrata os mais fracos, condena os que discordam de suas opiniões (que ele faz questão de impor o tempo todo, principalmente na internet, onde ninguém pode quebrar seus dentes) e o pior, ele é burro. Muito burro. Ler seu suposto português é como tentar decifrar o manuscrito de Voynich. Talvez porque o único livro que leu foi: “Desperte o Empreendedor dentro de Você” (e não deu certo, o empreendedor dele continuar hibernando).

Sei que não sou exemplo, e sendo o El Raí que és, tu sabes melhor que ninguém dos meus defeitos, então pode parecer hipocrisia falar do Joãozinho dessa maneira, mas, convenhamos, tendo noção de nossa insignificância, sou incapaz de espalhar o ódio da maneira que meu semelhante faz, então permita-me esquecer um pouco dos meus delitos e desabafar contigo.

Adonai, já desisti de entender teu mundo. Quando mais estudo, mais tenho a certeza de que você devia voltar e adaptar seus ensinamentos ao contemporâneo. Hoje não é só a essência do criador que nos conecta, há a televisão, a internet, a facilidade de transporte. Qualquer retardado é capaz de gritar suas opiniões. E qualquer grupo é capaz de te obrigar a alguma coisa. Há o estado, o banco, o partido, a ordem, a lei, e a porra toda. Ninguém tem paz. É impossível ser complacente no transito das dezoito horas, ou paciente com o idiota que pichou meu muro para expor sua insignificante opinião política.

Confissão

Nos tempos do ipse se nihil scire id unum sciat de Platão, até que esse tipo de coisa podia funcionar, mas hoje todos têm enxurradas de certezas. Acredite ou não, as pessoas estão brigando para definir qual a opinião de Deus sobre o que elas fazem com seus cus (literalmente). Ninguém está interessado no fato de haver uma infinidade de galáxias que desconhecemos, ou elaborar uma teoria concreta sobre o pós-morte. Cus! Elas só querem saber de brigar sobre cus.

Sinceramente, YHWH, sua criação é uma merda. E falar isto pode me colocar nos favoritos da Serpente, mas devo dizer: as pessoas são podres. Aspirando a grandeza ou o decimo terceiro, enquanto se matam, mentem, fodem e odeiam. A maioria não serve para nada. De bilhões, quantos realmente fizeram algo significante? E nem venha perguntar sobre mim, o Senhor sabe muito bem que sou só mais um idiota egoísta, o que, de certa forma, explica o que venho dizendo até aqui.

Não dá para elogiar seus filhos. E metade da culpa é sua. Você não foi claro o suficiente. Em suas contas, não ponderou nosso intelecto limitado e acabou nos largando numa ilha deserta sem instruções. Gosto de acreditar que de vez em quando você manda algum iluminado para tentar consertar isto. Mas sinto te informar, isto também não dá certo. Tomemos Jesus, o favorito, como exemplo, há dois mil anos, Jesus veio a Terra e pregou a paz. Ótimo. Ponto para o Senhor. Quinhentos anos depois, nós, os imbecis, já havíamos distorcido seus ensinamentos e derramado um oceano de sangue em seu nome.

Contudo, há algo que devo admitir, quando avalio duas pessoas que se amam de verdade, consigo enxergar seu ponto. Há beleza em toda aquela preocupação, sacrifício e prazer. Como se, a sombra disto, todos os mistérios do mundo fossem insignificantes e amar fosse o único motivo de estarmos aqui. O que quero te dizer é: aprendi muito mais sobre seus ensinamentos, observando um casal feliz, do que em todas suas malditas religiões juntas.

Confissão ou sobre nomes, ilhas e cus
Imagem:  shutterstock/Asier Romer

Portanto, perdão, Abbá, pois sou incapaz de amar verdadeiramente qualquer idiota. Saber que somos todos iguais aos seus olhos, me entristece, pois aqui, bem de perto, somos completamente diferentes. E talvez por pensar assim, me falte a aptidão para seguir à risca os ensinamentos de seus iluminados. Como penitência, prometo nunca condenar ou criticar o que foge de minha compreensão. Prometo não fazer o mal e, quando possível, fazer o bem. Por fim, prometo compensar minha incapacidade de amar a todos, amando com fervor os poucos que conquistaram meus sentimentos.

Amém.

Luccas Tartuce

Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo. Perfil de Luccas Tartuce no Facebook

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Sobre o autor/a autora

Luccas Tartuce
Luccas TartuceAdvogado e escritor

Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo.

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