quarta-feira, 3 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
Início Crônicas, contos e poesias Não somos máquinas. Somos bichos que amam.

Não somos máquinas. Somos bichos que amam.

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Todo bicho um dia nasce e um dia morre. Alguns, entre uma coisa e outra, envelhecem. Mas todos, sem exceção, um dia vêm e um dia vão. Os ursos e os jacarés, a coruja, o pavão. Os pinguins e os caramujos. Cães e gatos, minhocas e besouros, vacas, focas, touros.

Tatus, mulas, zebus, cigarras, zebras e urubus. Lagartixas, passarinhos, macacos, golfinhos. Pombas elegantes, elefantes, girafas pescoçudas, preguiças muito mudas, cavalos velozes, lontras, albatrozes.

Leões, rinocerontes e zangões. Todo mundo um dia chega e um dia vai. Até a gente. Bichos perplexos e finitos, tão complexos e perdidos quanto os outros já nascidos.

É que a gente esquece, desconversa, passa ao largo e vai assim, vivendo. Mas um dia, ah, um dia isso tem fim. The End. Entende? E se há diferença que preste entre nós e os outros bichos é que, da chegada à despedida, esse negócio que a gente chama de vida, o que acontece é quase sempre reação, contrapartida. É só o que a gente merece.

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Sujeito nasce, veste um sonho e sai. Olha pro alto e vai adiante, pisa cidades não inauguraras, jardins à espera sob o asfalto, respira flores não nascidas, ouve canções ainda não paridas, assoviadas por crianças ainda não compostas. Em suas costas, um amigo nunca feito lhe tem saudade, um lugar em que não esteve lhe sente a falta. E na pele da pessoa amada que ainda não esteve em seus braços, seu cheiro recende, persiste, provoca.

A vida é o que pode acontecer da chegada até a partida. Até lembrança de coisa não vivida, promessa esperando graça, prece não atendida.

Entre chegar e partir, a gente se encontra, se descobre, se completa, se liberta e vive para sempre. Repare, é verdade. Gente já vem ao mundo com vocação de eternidade.

A gente nasce, cresce. Mas quando se encontra é que a gente acontece. Quando o amor, em seu mau jeito de criança que ainda não sabe pedir “por favor”, chega com tudo, do nada, perfeito. Feito um rinoceronte trancado na lojinha de cristais, o amor derruba tudo. Sem mais.

Acontece assim. Todo bicho um dia nasce e um dia morre. Alguns, entre uma coisa e outra, se encontram, crescem, envelhecem. Melhoram. Até o dia em que vão. Todos vamos. Sem exceção. Melhor viver bem o tempo juntos. Me dá sua mão. O amor é o que nos salva da extinção.

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A autora/o autor:

André J. Gomes
André J. Gomeshttp://www.revistaletra.com.br/
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.
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