sábado, 6 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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O dia em que o povo míope começou a enxergar melhor

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Era uma vez um reino longínquo, onde, por um motivo genético, mais de dois terços da população eram míopes, sendo oprimidos pela minoria que enxergava bem.

Esse reino era tão distante de tudo que o povo míope vivia isolado da realidade de lá fora, aceitando a vida que ali levava como a única forma possível de viver. O rei tirano, que os governava, enxergava bem e era esperto, proibindo que qualquer informação sobre o mundo fosse contada oralmente. Essas informações só podiam ser escritas em livros, de modo que somente os que tinham bons olhos podiam lê-las. Dessa maneira, o rei garantia que a minoria “enxergante” dominasse a maioria míope.

Como o rei sabia que os míopes, por não enxergarem bem, não tinham capacidade de ler, ele não se importava que havia livros espalhados por todo o reino. Ele sentia-se seguro, já que um livro não era nenhum perigo na mão de um míope.

E assim, enquanto a pequena parcela, que via bem, vivia em luxo e muito conforto, os míopes eram pobres, passavam fome e tinham que trabalhar pesado para manter esse sistema no país.

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Esse povo foi vivendo assim por muito tempo, sempre dominado pelo rei tirano e sua corte, de maneira que todos os míopes achavam aquilo normal, já que nenhum deles conhecia uma realidade diferente.

Certo dia, chegou ao reino um forasteiro, com uma carroça cheia de bugigangas, que vendia por aí. Quando o rei soube disso, mandou que ele fosse controlado, com medo de que essa pessoa de fora trouxesse alguma informação que pudesse “abrir os olhos” dos míopes. Ele enviou seu secretário escoltado por alguns soldados para saber quem era o forasteiro.

O secretário voltou para tranquilizar o rei, dizendo que não se preocupasse, já que o forasteiro era um louco esotérico que não falava coisa com coisa e que só vendia baboseiras sem qualquer utilidade.

Entretanto, em sua prepotência de quem acredita enxergar bem, mesmo sem olhar direito, o secretário não havia controlado a carroça do forasteiro acuradamente e não viu que ele transportava alguns caixotes cheios de óculos.

Os míopes, alegres com a chegada daquele homem e com aquelas novidades que ele vendia, começaram a pegar o pouco dinheiro que tinham para comprar suas bugigangas, inclusive os óculos.

Não demorou muito para que os míopes descobrissem que podiam usar esses óculos para enxergar melhor e ler os livros que andavam espalhados por todo o reino.

Eles foram aprendendo que lá fora havia uma realidade diferente e que não tinham que aceitar aquela vida indigna que levavam. Revoltados, eles se reuniram e marcharam para o palácio para derrubar o rei.

Desesperado, o secretário correu para avisar o monarca do protesto popular e de que os míopes agora tinham óculos e podiam enxergar a verdade. Logo depois, veio também toda a corte que, com medo de perder seus privilégios, exigia do rei que tomasse uma providência, ameaçando até mesmo retirá-lo do poder, caso não reagisse logo. Mas o rei, que realmente era muito esperto, sabia que não podia reprimir os protestos, já que os míopes eram a maioria. Ele chamou o secretário e pediu que ele fosse urgentemente procurar o forasteiro e que lhe trouxesse uns óculos.

Quando os míopes revoltados chegaram ao palácio, o rei colocou os óculos no rosto e foi recebê-los, dizendo que também era míope e que agora conseguia ver a verdade como eles, supondo que também teria sido enganado e culpando os membros da corte, que, segundo ele, eram os que enxergavam bem e que haviam enganado a todos, inclusive a ele. Ao escutar isso, a corte saiu correndo, tentando fugir, e os míopes foram atrás para pegá-la. Os membros da corte foram então presos e deportados do país.

No dia seguinte, houve uma grande festa e o povo míope comemorou a vitória e também seu “novo” rei, que, como eles, agora também enxergaria bem. O rei esperto decretou algumas mudanças bobas, mas na verdade sem mudar muita coisa, mandou distribuir comida e bebida a todos e dar uns presentinhos ao povo que, satisfeito, voltou a viver como vivia antes, mas acreditando que agora estaria tudo melhor.

O rei, sentado depois no trono, chamou o secretário, tirou os óculos, sorriu maliciosamente e disse-lhe que relaxasse, pois não haveria perigo, já que, no fundo, o povo não estaria realmente disposto a ver a verdade e a não se deixar mais enganar. Ele só precisava acreditar que agora estaria vendo melhor.

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.
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