sexta-feira, 29 maio 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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Sobre Páginas, Vampiro João e Menstruação

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Eu invejava aqueles desgraçados que conseguiam escrever dez, vinte ou cinquenta páginas em um só dia. Eu lia as entrevistas em que contatavam seus rituais, de como acordavam as seis da manhã para uma refrescante caminhada, ou iam à academia, depois tomavam um café da manhã balanceado e então escreviam em três horas a mesma quantidade que eu escrevia em um ano inteiro. Devem estar mentindo, eu dizia, como um escritor consegue acordar às seis da manhã e tomar um café balanceado? Que tipo de pacto demoníaco esses sujeitos fizeram?

Na curta ilusão de quando me dediquei exclusivamente a colocar palavras no papel, eu acordava as dez, morto de sono, ressaca e cansaço, pois na noite anterior tinha ficado até as cinco, escrevendo e apagando o mesmo maldito trecho, que no final descartava ou esquecia de salvar. Então ingeria quantidades absurdas de café, relia, pela vigésima terceira vez, algum conto do velho e escutava o mesmo disco do Gainsbourg (aquele de quando ele ainda não conhecia a maconha).

Sobre Páginas, Vampiro João e Menstruação


Só então eu conseguia digitar, quando a sorte estava a meu favor, uma página, talvez duas. E aquilo parecia sugar minha alma, no final me sentia exausto e sem a vontade ou a capacidade de continuar. Talvez se eu escrevesse sobre vampiros, ou sobre a beleza da vida, as coisas seriam diferentes.

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Até tentei: “João era um vampiro”, mas então “doidão” e “sangue de menstruação” invadiam minha cabeça e eu optava por desistir. Talvez eu não possuísse talento algum. E também não precisavam de outro abestalhado, metido a escritor, contando sobre bebedeiras, mulheres de má fama, desilusões amorosas e as incoerências da boa gente. Agora todo mundo só falava sobre isso, qualquer imbecil, que mal tinha tomado um porre na vida, escrevia belos contos falando de como era ser um alcoólatra sem esperança, revoltado com tudo e todos.

A culpa é do maldito Bukowski, creio eu. Depois dele, qualquer idiota acha que é só trocar as virgulas por pontos e engrandecer a bebida, e pronto, puff, você é um escritor “cult”. A propósito, “cult” quer dizer que você transa de costas. Além disso, beber igual um condenado e frequentar bares de penitenciaria não é tão legal quanto você pensa. Tenho certeza de que se você passar uma semana fazendo o que está nesses contos, você vai querer escrever sobre vampiros. Vai por mim, se não fosse por minha incompetência, já teria escrito lindas histórias de amor sobre um chupador de sangue chamado João.

Luccas Tartuce

Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo. Perfil de Luccas Tartuce no Facebook

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Confissão. Um papo aberto com o “chefe” sobre o estrago que fizemos com sua criação!

 

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