sábado, 6 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.

Trânsito

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Numa segunda-feira de manhã, em meio a centenas de carros parados no trânsito, é possível ver gente de todo tipo: o semblante frustrado da mãe que leva seus filhos na escola, mas que volta e meia se pega pensando em como seria sua vida se tivesse optado por seguir a carreira que sempre sonhou; a tensão do motorista iniciante com medo de causar algum acidente; o riso inconfundível daquele que está dando a primeira volta no carro que acabou de comprar, e que aproveita o trânsito parado para explorar melhor o espaço interno do veículo; o semblante pesado do executivo pai de família que só na semana passada perdeu três contratos devido à crise. Enfim, todo tipo de gente.

Em meio a todos estes, surgiu o menor de todos.

“Quem dorme sonha, quem trabalha conquista”.

Era o que estava escrito num papel cheio de amendoins, colocado em cima do meu retrovisor. O menino franzino de aparentemente dez anos de idade era tão rápido que logo sumiu do meu alcance.

 

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Entrando por entre os carros, ele notava a insatisfação no semblante da maioria dos motoristas ali parados. Dos seus colegas, ele era o mais sensível e observador, e naquele dia estava mais pensativo do que de costume. Ele já estava trabalhando ali há algumas horas, e começava a sentir os efeitos da insolação.

Pensava consigo:

“ – Hoje tá ruim! Esse povo tá de mau humor! Eu hein, reclamam de barriga cheia! Poderiam pelo menos reclamar com a barriga cheia do amendoim que estou vendendo!”

Logo depois procurou uma sombra e se sentou próximo ao meio fio. Pensava em como esse mundo é injusto. Leu novamente a frase que dizia “quem trabalha conquista”, e questionou:

“ – Conquistar o quê? Alguns trocados que irão garantir, quem sabe, a única refeição do dia? Isso é conquistar? Mas Deus me livre falar isso alto! Vão falar que eu me faço de vítima, e que isso é pretexto para ser marginal”.

O diálogo interno do menino prosseguia tentando entender o motivo de haver tanta gente insatisfeita com a vida que tinham. E concluiu em minutos aquilo que muitos morrem sem entender, e às vezes, só entendem quando são acometidos por um câncer ou quando já no fim da vida, olham para trás e têm a triste sensação de que todo sacrifício e tempo gasto foram em vão.

De repente, em meio a pensamentos angustiantes, lhe sobreveio um alívio incomum. E percebeu também que dentro de si ainda havia traços de felicidade.

Então, um leve riso brotou no pequeno rosto castigado pelo sol.

Lembrou-se de como o último banho de mangueira na calçada do seu vizinho tinha sido bom.

Lembrou-se do aconchegante colchão que sua mãe ganhou e deu para ele e os irmãos.

Das pipas voadas que consegue pegar na rua sem gastar um centavo.

Das semanas em que consegue vender bastante e pode ir ao mercado com sua mãe de cabeça erguida, aproveitando também para se divertir assistindo as caras surpresas dos seguranças quando eles voltam com o carrinho cheio de compras para pagar.

Chegou à conclusão de que quanto mais perto estivesse da simplicidade, mais perto estaria da felicidade.

As pessoas tentam comprar a felicidade e a consideram cada vez mais cara. Mas, como pagar por algo que não tem preço? Pobres infelizes… mal sabem eles que a felicidade é gratuita.

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera. www.tudoinverso.com

 
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