sexta-feira, 29 maio 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.

Um ato de desapego

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Ela, uma senhora idosa, com seus 80 anos, robusta, lúcida, bem disposta, alegre, ficou viúva há dez anos.

Certo dia, ela estava com uma amiga em sua chácara, que era um lugar agradável, onde passara muitos momentos especiais e que sempre lhe trazia boas recordações. Ali, tudo lhe lembrava do marido, inclusive aquele quadro na sala, que a retratava. Ele, há muitos, muitos anos, tinha encarregado Carlos Bracher com a pintura e lhe dado de presente.

Ela contemplava aquela obra linda e grandiosa, aquela pintura enorme que tomava quase toda a parede e mostrava sua própria beleza, no auge da junventude, mas percebeu uma sensação desagradável, algo que já havia sentido várias vezes ultimamente, sempre que olhava para o quadro. Ela não entendia aquele sentimento, já que gostava da pintura e ela lhe trazia lembranças de uma época feliz. Sentiu mais uma vez aquele mal-estar, revivendo um desagrado que não compreendia.

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Logo depois, começou a revirar as gavetas, com a amiga sem entender.

“O que procura?”, perguntou a amiga.

“Uma tesoura”, respondeu ela, achando na gaveta do meio do armário a tesoura que buscava.

“Para que você precisa de uma tesoura?”, indagou a amiga, mas ela não respondeu. Simplesmente dirigiu-se ao quadro, tirando-o da parede e começando a cortá-lo em pedacinhos.

A amiga, assustada, começou a gritar, pedindo para que parasse, argumentando que o quadro tinha pelo menos um bom valor material, mas ela prosseguiu cortando e disse que o quadro a estava incomodando e que agora ela havia descoberto por que:

“Estou velha e uma hora morrerei, tenho quatro filhos com vários casamentos e gostos. Este quadro com certeza pararia no mínimo no maleiro ou sótão da casa de algum. Tenho agora a clareza que todo o simbolismo desta tela só diz respeito a mim e as lembranças preciosas ligadas a ela não são importantes para mais ninguém. Não vou deixar o quadro por aí, de mão em mão e até desprezado. Acabou-se!”

Neste momento, ela sentiu um bem-estar enorme descendo por seu corpo e uma leveza ainda maior em sua alma. E ela entendeu que aquele ato de desapego lhe trouxe vida e a libertou. O importante era que o quadro (com todas as lembranças) estava dentro dela. Esse “cortar o quadro em pedacinhos” não destruiu a essência que ela carregava consigo e foi uma forma de se soltar/descolar de uma coisa terrena, evitando, ao mesmo tempo, que algo tão importante para ela e para o falecido marido terminasse virando suporte para teia de aranha no sótão de alguém.

Ao terminar de cortar, ela pegou uma vassoura, varreu todos os pedaços para um canto, olhou sorrindo para a amiga e perguntou:

“Vamos passear?”

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.
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