quinta-feira, 28 maio 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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Bendita família, maldita família

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Há alguns dias, presenciei uma cena comovente: dois irmãos, ambos idosos, conversavam. Um deles, o mais velho, havia perdido a esposa. Mesmo que seu falecimento não tenha vindo de surpresa, já que também era idosa e já estava doente há longo tempo, o marido tinha dificuldade de aceitar o ocorrido. E esse era o teor da conversa: o irmão mais novo consolava o mais velho e tentava ajudá-lo a aceitar a morte da esposa. Em certo momento, os dois se calaram e o irmão mais velho começou a chorar, ali, à minha frente, um choro profundo e sincero. O irmão mais novo o abraçou e lá ficaram, entrelaçados por um instante. De repente, começaram a falar do passado, das brigas que tiveram, das dores de cabeça que o mais novo havia dado aos pais e de muitas outras coisas. E falaram das aventuras e dos amores vividos e de Gertrude, uma moça na qual ambos se apaixonaram na juventude e que fez com que os se tornassem rivais e não se falassem por um tempo. No desenrolar da conversa, começaram a rir das recordações e das loucuras vividas, até que o irmão mais velho olhou sério para o mais novo, colocou a mão em seu ombro e agradeceu por tudo. Marcante para mim foi quando ele disse que “sem você, meu irmão, eu não suportaria essa dor que agora sinto e não teria mais coragem de continuar”. E a resposta do irmão também foi interessante: “Somos uma família. E família existe é para isso”.

Foi uma dessas cenas que mexem com a gente. Mexeu tanto comigo que passei os últimos dias refletindo sobre o tema família, sobre o bem que ela nos faz, mas também sobre o mal e o sofrimento que ela nos pode trazer. Bendita família, maldita família…

Bendita é a família quando nos abriga e ampara, sendo uma ilha no oceano da vida, onde encontramos aconchego e solidariedade, maternidade, paternidade e irmandade. Ela é bendita quando nos abraça nos momentos difíceis, quando nos conhece bem e nos aceita como somos. E foi essa bendição familiar que me comoveu na conversa dos dois irmãos e foi ali que vi o sentido saudável e positivo da família que, sim, é para isso que existe.

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Tanto faz se grande ou pequena, rica ou pobre, só com pai ou só com mãe ou mesmo sem pai e sem mãe, tanto faz a constelação: toda família é bendita quando consegue ser família de verdade, mais que uma casta ou linhagem, unida não somente pelo sangue, mas que vai além disso, servindo de plataforma para crescermos e nos fortalecermos num ambiente de amor e respeito.

Devemos nos sentir abençoados e sortudos quando temos uma família assim, que nos acolhe sem impor ou cobrar nada, que nos ama e aceita incondicionalmente, que nos dá o sentimento de não estarmos sozinhos neste mundo e que sempre nos inspira e nos dá coragem para continuar, por mais dura que seja a situação que atravessamos.

Ao ver aqueles dois irmãos tão próximos e amigos, aquela irmandade verdadeira, senti o desejo profundo de que todos nós tivéssemos essa sorte, que todos nós tivéssemos uma boa família, uma bendita família. Feliz e comovido, desejei isso de coração, mas, ao mesmo tempo, triste e pensativo, constatei que isso nem sempre é assim.

Muitos não se sentem assim abençoados, pelo contrário: sentem-se mal-aventurados, desafortunados, sozinhos nos momentos difíceis no oceano da vida por não terem uma ilha de aconchego, nem de solidariedade, nem de maternidade, nem de paternidade e muito menos de irmandade, apesar de terem uma família, uma maldita família, desunida e egoísta, que impõe e cobra, que castiga e rejeita ao invés de amparar ou, ainda pior, fica indiferente ao seu sofrimento.

Maldita é a família quando nos torna malditosos, quando nos desencoraja e faz com que nos sintamos sós, é a família que nos maltrata, que nos violenta, que não consegue ser mais que uma casta ou linhagem, que tem o mesmo sangue, mas só isso, que também nos faz crescer, mas pela dor e pela decepção e não pelo respeito e pelo amor. A família maldita não enlaça, não incentiva, não constrói, apenas destrói e inibe nosso desenvolvimento e nossa liberdade de sermos quem realmente somos.

Bendita família, maldita família

Maldita é a família quando é conturbada, perdida em si mesma e fazendo com que nos sintamos igualmente perdidos, nos endurecendo ao invés de nos fortalecer, incutindo em nós valores errados e uma frustração que, por mais que nos libertemos, nos acompanha por toda a vida, nos deixando tristes sempre que pensamos em tudo que foi, mas não deveria ter sido, e em tudo que deveria ter sido, mas nunca foi.

Tanto faz se bendita ou maldita, não existe família perfeita. Mesmo em uma família bendita, há brigas, desentendimentos e sofrimento, mas a diferença é que nela também há apoio e resgate dos laços primeiros, enquanto que, numa família maldita, os únicos denominadores comuns são os elos biológicos e o sofrimento de todos, já que ninguém pode realmente ser feliz em uma família assim.

O problema é que não podemos escolher em que família nascemos, não podemos decidir se nossa família é bendita ou maldita, se nos faz bem ou nos faz sofrer. Ao nascermos, não podemos escolher se teremos pais que de tudo farão para que sejamos independentes, fortes e felizes ou se eles apenas se preocuparão com a própria sorte e as próprias animosidades, por mais mesquinhas que sejam. Não podemos escolher se teremos pais verdadeiros ou meros genitores e se nossos irmãos e irmãs estarão realmente ao nosso lado para o que der e vier ou se eles somente vão cobrar aquilo que poderia vir de nós.

Não, não podemos escolher. Família bendita ou maldita é questão de sorte, de destino, de onde a cegonha nos larga quando entramos neste mundo. E assim, só nos resta aceitar, com gratidão se for bendita ou com condescendência se for maldita, prosseguindo nosso caminho e levando conosco o melhor que pudermos levar do seio familiar, mesmo que esse seio seja falso, de silicone ou borracha de pneu, já que de nada adianta lutar contra o que não podemos mudar.

Quando temos a sorte de ter uma família bendita, devemos simplesmente ser gratos pelo destino ter sido complacente conosco. Já quando não temos essa sorte, o caminho é aceitar a dor de ter uma família maldita, buscando então alternativas, buscando pessoas que não tenham o mesmo sangue nosso, mas que sejam “madeira da mesma árvore” ou “farinha do mesmo saco”, que nos aceitem, nos acolham e nos fortaleçam, dando-nos o amor e o respeito que a família não pôde ou não quis nos dar.

Gustl Rosenkranz

Blogueiro residente em Berlim. Escrevo sem luvas porque tocar é importante. Minha formação, eu diria, foram duas mulheres. A primeira foi minha mãe, que acreditou muito em mim e me ensinou a me virar neste mundo, dando-me exemplo, lutando, correndo atrás, mas sem nunca querer nada que não fosse fruto do próprio trabalho, não tendo muito, mas sempre partilhando o que tinha, sem nunca reclamar e sempre repetindo que eu usasse minha cabeça para aquilo que ela melhor sabe fazer: pensar. A outra foi minha avó, com quem tive muitas conversas longas e que me ensinou muito sobre a vida e sobre o que ela via por trás das coisas, e que também dizia que eu realmente deveria usar a cabeça para pensar, mas sem nunca deixar de usar o coração para sentir. Essas duas mulheres sensacionais foram minha formação básica. O que veio depois, foi só complemento. www.gustl-rosenkranz.de

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.
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