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A função paterna estaria em declínio?

Existe uma queda da paternidade nos dias atuais?

O núcleo familiar, que é condição essencial para a continuidade da civilização, encontra-se em permanente e acelerada mudança nas últimas décadas e apresenta, assim, novas inquietações. Tanto é que, com passar dos anos, muitos teóricos de diversas áreas se perguntam: existe uma queda da função paterna nos dias atuais? Pois a figura do pai austero, repressor, que impõe a lei dentro de casa, está sistematicamente ruindo diante de inúmeros discursos e cedendo um espaço para o surgimento de novas formas de tal imago. Entretanto, do que se trata essa função e como localizar positivamente a atuação de um pai dentro de casa?

Não é possível tratar da função do pai sem discorrer sobre a referência da função da mãe. Da mesma forma que o homem seria descartável, com a condição de que o pai, enquanto função, seria estritamente necessário, a mãe biológica ou a figura da mulher não se encontra além do papel de geradora. Para que haja a criação de um filho, ou seja, a constituição de um sujeito, aí sim seria necessário que alguém fizesse a feita relacionada à função materna. E tal papel surge na medida em que a condição humana per se apresenta-se como uma condição de intersubjetividade entre o bebê e aquela ou aquele que o cria. No decorrer de seu desenvolvimento, a criança então se vê imersa em diferentes estágios sobre os quais deve lidar subjetivamente com desejos e demandas.

É nessa gênese da vida psíquica do sujeito que a função paterna exerce papel fundamental, pois impõe de maneira natural as barreiras simbólicas essenciais que o sujeito deve introjetar para seguir adiante. Isso quer dizer que o pai, no sentido de uma função portanto, preenche um vazio entre a intersubjetividade da criança e da mãe, que é uma relação de puro afeto. Isso porque o puro afeto precisa ser desarticulado, atravessado, enquanto a criança deve “andar com suas próprias pernas” (literal e figurativamente). É nesse sentido que a função paterna entra em cena como aquela que sinaliza para a criança dois itens primordiais: o desejo pela mãe e o empenho da palavra.

Um pai que não deseja falha como função paterna, pois é aí que a criança, já envolvida na relação de afeto com a mãe, coloca-se na condição de esclarecer um vazio, e realiza, contudo, uma tarefa que não é sua. Da mesma forma, as questões variadas que surgem dentro de casa e que são trazidas pelos pequenos devem ser sempre respondidas da maneira mais natural e verdadeira possível, caso contrário, a verdade como ideal fica subjugada pela sensação de um desapontamento que, se relacionado com pai, vai indicar para uma figura derrotada.


Casos cotidianos como o pai que renuncia ao seu lugar na cama para o filho na hora de dormir, relacionado com a questão do desejo, e pequenas ou grandes mentiras como postergar a verdade de um filho numa condição adotiva (o não empenho da verdade) demonstram o quão frágil e ao mesmo tempo necessária é a função paterna. Cenários em que crianças se encontravam sem esse amparo simbólico revelam problemas psíquicos que surgem a posteriori.

Tudo isso nos assinala que, apesar das mudanças radicais na cultura, não existe uma queda da função paterna, mas sim a reconfiguração da imago do pai, quer dizer, o deslocamento da figura do pai austero para novas figuras que estão despontando no crepúsculo das culturas. Da mesma forma, os itens cruciais que se atam à função paterna não dependem da austeridade crassa, de uma repressão radical e intransigente. O pai, como função, encontra-se no próprio desenvolvimento da criança, devendo os pais, em vista disso, estarem atentos sobre os sinais que certos excessos dentro de casa provocam na vida psíquica da criança e da família.

Pintura de Peter Paul Rubens, pintor flamengo do estilo barroco do século XVI, que retrata Cronos (ou Saturno) devorando um de seus filhos. Na mitologia grega, o Deus-Titã Cronos castra seu pai, Urano, com um golpe de foice e se torna Senhor do Céu. Com medo de ser destronado, Cronos engolia seus filhos logo após o nascimento. Correspondente a isso encontramos a hipótese do pai da horda primeva, que descreve o tipo mais primitivo de uma organização social quando o pai totêmico e violento, por ciúmes, possuía todas as mulheres da tribo e expulsava os filhos quando chegavam na idade adulta. Este primeiro tipo de pai, mítico, insere a imago paterna na intersubjetividade familiar e, ao mesmo tempo, sua problemática enquanto função de algo para algo, ou seja, o próprio complexo paterno. Cronos é derrotado por seu filho Zeus, e o pai totêmico é morto por uma horda de filhos expulsos da tribo.

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Felipe Bueno
Felipe Buenohttps://medium.com/@felipejbueno
Semioticista — atuo na área de pesquisa em semiótica peirceana e psicanálise lacaniana.

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