A fome é motivo para fugir
Sociedade

A fome é motivo tão digno para fugir quanto a guerra!

É injusta essa diferenciação de que quem foge de guerra pode ficar na Europa e quem foge da fome não tem esse direito. Sofrimento é sofrimento, morte é morte e cada vida é uma vida que merece ser respeitada e salva na hora do aperto existencial, seja ele qual for. Não existe „perigo de vida digno“ e „perigo de vida indigno“, não há desespero certo e desespero errado, não existem seres humanos de diferentes categorias.

Tem gente aqui na Europa que reclama de refugiados, mas diferencia, deixando claro que não fala de todos. Os refugiados de guerra, que estão fugindo da Síria, por exemplo, tudo bem. Essa gente é aceita. Quem não deve ficar são aqueles que vêm para cá „só atrás de uma vida melhor”, como se a fome, a pobreza e o desemprego fossem motivos menos digno para alguém fugir de sua terra.

A guerra é uma coisa horrível e eu sou eternamente grato por nunca ter tido que enfrentar nenhuma. Nem sei se consigo imaginar realmente o que sofre alguém que vive com medo de bombas e tiros, que já viram parentes, amigos e vizinhos morrerem, mulheres, talvez as próprias filhas, sendo violentadas, de ter a morte à sua frente a todo momento. É claro que quem passa por isso tem todo o direito de fugir.

Mas também tem o direito de fugir quem vive sem perspectiva, quem tem que procurar comida no lixo, quem tem que vender a alma para se alimentar, quem vê os filhos, os irmãos, os pais indo para a cama de barriga vazia, quem não acha trabalho, a não ser trabalho escravo ou semiescravo ou trabalho para bandidos, quem vive num meio social envenenado, onde rege a violência das ruas, sob a indiferença de governantes corruptos e elites corrompidas. Sim, também tem o direito de fugir essa gente que não sabe de seu dia de amanhã, que nada mais tem a perder, que sai então de sua terra para salvar pelo menos sua dignidade, correndo o risco de morrer no caminho nas mãos perversas de traficantes de gente ou afogado no Mar Mediterrâneo.

É injusta essa diferenciação de que quem foge de guerra pode ficar e quem foge da fome não tem esse direito. Sofrimento é sofrimento, morte é morte e cada vida é uma vida que merece ser respeitada e salva na hora do aperto existencial, seja ele qual for. Não existe „perigo de vida digno“ e „perigo de vida indigno“, não há desespero certo e desespero errado, não existem seres humanos de diferentes categorias.

A fome é motivo tão digno para fugir quanto a guerra!

Quem diferencia quem tem ou não o direito de sobreviver se põe no lugar de Deus e peca. Nenhum de nós (nenhum mesmo!) tem o direito de negar ajuda a ninguém que esteja em perigo. Quem está numa região de guerra com bombas explodindo à sua volta, está em perigo e precisa de ajuda. Quem vive na pobreza e corre para não morrer de fome também.

Sim, claro, nem todos que fogem estão passando fome em suas terras, mas eles têm medo. Lá talvez não tenha guerra oficial, mas tem guerras inoficiais, com quadrilhas se combatendo nas ruas, com a polícia sendo uma das quadrilhas, balas perdidas e minas no chão, muitas vezes com ditadores matando a liberdade de pensar e quem insiste em pensar assim mesmo. Sejamos francos, isso também é motivo mais do que digno para dar no pé, ou não?

Eu mesmo confesso: se eu vivesse em um lugar desolado, sem quaisquer perspectivas, num meio violento, passando necessidades sérias, talvez até fome, pode ter certeza que eu faria de tudo para sair dali. E é claro que eu iria para uma região rica, onde minhas chances seriam melhores.

A coisa está tão cínica que o governo alemão cedeu à pressão de gente mesquinha que rejeita refugiados (este ano tem eleição e estamos em plena campanha eleitoral!) e declarou que o Afeganistão é um país seguro, que não há guerra por aquelas bandas e que não haveria então motivos para dar asilo a quem vem de lá. Como se resolveu que o país é um lugar seguro, apesar dos Talibãs, apesar de bombas explodindo todos os dias até mesmo à frente do prédio da embaixada alemã, pessoas do Afeganistão deixam de ser refugiados de guerra, passam a ser o que essa gente perversa chama de “Wirtschaftsflüchtinge” (refugiados econômicos), que então podem ser deportados. Aqui vemos como essa diferenciação é perigosa.

É estranho, muito estranho ver imigrantes na Europa, também brasileiros, que vieram para cá atrás de uma vida melhor, criticando outros por fazerem o mesmo, como se esses tivessem menos direitos que eles.

O mundo passa por uma forte fase de migração, os motivos são muitos e a maior parte deles são coisas e situações que nós mesmos criamos, toleramos e fomentamos, durante décadas, durante séculos, através de nosso consumo sem qualquer senso crítico, com nossa indiferença ao não querer saber de onde vêm nossas roupas baratas, com nossa falta de responsabilidade ao votar em políticos que nos prometem vantagens momentâneas às custas do futuro comum, ao preferirmos o imediato ao sustentável.

Esse “êxodo” atual não é um fenômeno repentino, que surgiu de uma hora para a outra, assim do nada. Ele é resultado de uma política econômica e militar (duas coisas que costumam andar de mãos dadas!) que fomentou a pobreza em muitas regiões do mundo a favor da riqueza em poucas outras ou criou guerras por causa de influência, petróleo e outros recursos naturais ou simplesmente para vender armas.

É claro que cada um de nós pode dizer agora que não tem qualquer responsabilidade por nada disso, pois, ele, como cidadão nada poderia ter feito contra, mas sabemos que não é bem assim. Todos nós temos nossa parcela de responsabilidade pelo passado e pelo futuro, mas principalmente de fazermos nossa parte aqui e agora.

Ficar agora diferenciando quem precisa de ajuda e negando amparo a quem emigra para fugir da pobreza é tentar fugir exatamente dessa responsabilidade que carregamos por quem foge da fome.

Mas é evidente que a Europa não pode abrigar todos os refugiados do mundo. Não pode e nem deve, pois não é essa a solução para o problema, já que esse tem que ser resolvido na raiz, cortando os motivos da emigração, consertando a situação nos lugares dos quais as pessoas fogem para que elas não precisem mais fugir. Precisamos rever as regras de mercado internacionais e cuidar para haja um maior equilíbrio na distribuição de recursos e riqueza no mundo. Se queremos resolver o problema de migração, precisamos mudar muita coisa, refazer sistemas, e isso demora.

Mas o que podemos fazer até lá? Nós podemos simplesmente ser humanos, com nossos medos e preocupações, com nossas inseguranças, com nossas desconfianças diante do que nos é estranho, mas sem deixar de ser gente do bem, sem apoiar quem dissemina discurso de ódio e busca a divisão, a intolerância e a pobreza de espírito que disso resulta. Podemos nos informar, tentando entender a situação e tomar decisões responsáveis na hora de ir às urnas para votar. Podemos ser humanos e nos ver mutuamente assim, reconhecendo que somos todos iguais, que temos a mesma dignidade e o mesmo direito de existir e que, por isso, não existe e nem podem existir vidas que merecem ser salvas e outras que não.

Gustl Rosenkranz

Escrevo sem luvas porque tocar é importante. www.gustl-rosenkranz.de

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