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A função paterna estaria em declínio?

paternidade
Existe uma queda da função paterna nos dias atuais? Pois a figura do pai austero, repressor, que impõe a lei dentro de casa, está sistematicamente ruindo diante de inúmeros discursos e cedendo um espaço para o surgimento de novas formas de tal imago.

Existe uma queda da paternidade nos dias atuais? Por Felipe Bueno

Pintura de Peter Paul Rubens, pintor flamengo do estilo barroco do século XVI, que retrata Cronos (ou Saturno) devorando um de seus filhos. Na mitologia grega, o Deus-Titã Cronos castra seu pai, Urano, com um golpe de foice e se torna Senhor do Céu. Com medo de ser destronado, Cronos engolia seus filhos logo após o nascimento. Correspondente a isso encontramos a hipótese do pai da horda primeva, que descreve o tipo mais primitivo de uma organização social quando o pai totêmico e violento, por ciúmes, possuía todas as mulheres da tribo e expulsava os filhos quando chegavam na idade adulta. Este primeiro tipo de pai, mítico, insere a imago paterna na intersubjetividade familiar e, ao mesmo tempo, sua problemática enquanto função de algo para algo, ou seja, o próprio complexo paterno. Cronos é derrotado por seu filho Zeus, e o pai totêmico é morto por uma horda de filhos expulsos da tribo.

O núcleo familiar, que é condição essencial para a continuidade da civilização, encontra-se em permanente e acelerada mudança nas últimas décadas e apresenta, assim, novas inquietações. Tanto é que, com passar dos anos, muitos teóricos de diversas áreas se perguntam: existe uma queda da função paterna nos dias atuais? Pois a figura do pai austero, repressor, que impõe a lei dentro de casa, está sistematicamente ruindo diante de inúmeros discursos e cedendo um espaço para o surgimento de novas formas de tal imago. Entretanto, do que se trata essa função e como localizar positivamente a atuação de um pai dentro de casa?

Não é possível tratar da função do pai sem discorrer sobre a referência da função da mãe. Da mesma forma que o homem seria descartável, com a condição de que o pai, enquanto função, seria estritamente necessário, a mãe biológica ou a figura da mulher não se encontra além do papel de geradora. Para que haja a criação de um filho, ou seja, a constituição de um sujeito, aí sim seria necessário que alguém fizesse a feita relacionada à função materna. E tal papel surge na medida em que a condição humana per se apresenta-se como uma condição de intersubjetividade entre o bebê e aquela ou aquele que o cria. No decorrer de seu desenvolvimento, a criança então se vê imersa em diferentes estágios sobre os quais deve lidar subjetivamente com desejos e demandas.

É nessa gênese da vida psíquica do sujeito que a função paterna exerce papel fundamental, pois impõe de maneira natural as barreiras simbólicas essenciais que o sujeito deve introjetar para seguir adiante. Isso quer dizer que o pai, no sentido de uma função portanto, preenche um vazio entre a intersubjetividade da criança e da mãe, que é uma relação de puro afeto. Isso porque o puro afeto precisa ser desarticulado, atravessado, enquanto a criança deve “andar com suas próprias pernas” (literal e figurativamente). É nesse sentido que a função paterna entra em cena como aquela que sinaliza para a criança dois itens primordiais: o desejo pela mãe e o empenho da palavra.

Um pai que não deseja falha como função paterna, pois é aí que a criança, já envolvida na relação de afeto com a mãe, coloca-se na condição de esclarecer um vazio, e realiza, contudo, uma tarefa que não é sua. Da mesma forma, as questões variadas que surgem dentro de casa e que são trazidas pelos pequenos devem ser sempre respondidas da maneira mais natural e verdadeira possível, caso contrário, a verdade como ideal fica subjugada pela sensação de um desapontamento que, se relacionado com pai, vai indicar para uma figura derrotada.

Casos cotidianos como o pai que renuncia ao seu lugar na cama para o filho na hora de dormir, relacionado com a questão do desejo, e pequenas ou grandes mentiras como postergar a verdade de um filho numa condição adotiva (o não empenho da verdade) demonstram o quão frágil e ao mesmo tempo necessária é a função paterna. Cenários em que crianças se encontravam sem esse amparo simbólico revelam problemas psíquicos que surgem a posteriori.

Tudo isso nos assinala que, apesar das mudanças radicais na cultura, não existe uma queda da função paterna, mas sim a reconfiguração da imago do pai, quer dizer, o deslocamento da figura do pai austero para novas figuras que estão despontando no crepúsculo das culturas. Da mesma forma, os itens cruciais que se atam à função paterna não dependem da austeridade crassa, de uma repressão radical e intransigente. O pai, como função, encontra-se no próprio desenvolvimento da criança, devendo os pais, em vista disso, estarem atentos sobre os sinais que certos excessos dentro de casa provocam na vida psíquica da criança e da família.

Sobre o autor/a autora

Felipe Bueno
Felipe Bueno
Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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