Início Comportamento Sobre pessoas difíceis, ou seja: sobre mim e sobre você

Sobre pessoas difíceis, ou seja: sobre mim e sobre você

Nas minhas andanças por este mundo, conheci muita gente, e foi gente de tudo quanto é tipo: estudada e analfabeta, calma e agitada, pobre e rica, egoísta e altruísta, austera e excêntrica, certinha e louca, enfim, de tudo quanto é jeito que se possa imaginar.

E foi observando toda essa gente e também a mim mesmo que percebi o quanto somos singulares, que cada um tem seus cantos e esquinas e que a vida é sempre tão individual como o ser que a vive.

Não somos seres simples. O ser humano é complexo e nosso lado emocional é um emaranhado de coisas que resultam tanto de nossa constituição como de todas as experiências vividas, principalmente daquelas da infância, que nos pregaram e formaram a base daquilo que somos.

Somos todos complexos, fruto de tudo aquilo que vivemos até agora. Carregamos em nós todo um acervo de experiências, emoções e tantas outras coisas que nem nós mesmos conseguimos entender plenamente. E, assim, somos todos difíceis de ser interpretados e entendidos também para os outros.

Somos todos difíceis

Em outras palavras: somos todos difíceis, complicados, ambíguos, contraditórios, uns mais, outros menos, mas todos de sua maneira especial, sempre de acordo com a vida e a realidade de cada um.

Pode ser que sejamos mais nítidos e transparentes hoje, mas isso pode mudar amanhã, já que nada neste mundo é constante, tudo muda, também nossa clareza, nossas certezas, nossa coerência e aquilo que somos ou acreditamos ser. O equilibrado de hoje pode ser o desvairado de amanhã, o torto de agora pode ser o certo de mais tarde, o pobre pode se tornar rico e o rico pobre, ninguém nunca sabe o que a vida trará no instante seguinte.

Não existe ser humano fácil, descomplicado, desenrolado. Nem ser humano difícil, complicado, enrolado. O que temos são fases de nossa vida, hoje uma fase mais clara, amanhã talvez mais conturbada e depois possivelmente mais clara ainda.

O que temos são histórias vividas e suas consequências, ações sofridas ou praticadas e seus efeitos, que geram situações e que nos pregam nessas situações.

Vejamos o exemplo de uma pessoa que é “difícil” por ser muito desconfiada. Ora, essa pessoa não nasceu desconfiada! Ela ficou assim com certeza porque confiou e foi decepcionada. Foram as circunstâncias de sua vida que fizeram crescer sua desconfiança e que ela se tornasse assim.

Virou moda o discurso sobre as pessoas difíceis

Assusto-me e me decepciono ao perceber que virou moda o discurso sobre as pessoas difíceis (que recebem muitos outros nomes: complicadas, problemáticas, tóxicas, vampiros emocionais…).

Assusto-me porque isso faz pouco sentido e decepciono-me porque é injusto, já que vejo “furados falando dos rasgados”, gente sendo criticada por coisas que todos nós somos, cada um de seu modo.

O número crescente de artigos sobre o assunto e sua repercussão mostram que há um grande interesse de certos leitores de confirmar a complexidade dos outros como se eles mesmos não fossem complexos, de realçar os defeitos alheios como se eles mesmos não tivessem os seus, de criticar a chatice de terceiros, como se eles mesmos jamais fossem chatos, criticando, julgando e até mesmo menosprezando aqueles que classificam como “difíceis”.

Sei que agora um ou outro leitor poderia protestar, afirmando que há pessoas que realmente são mais difíceis, e eu não discordaria disso. Não estou dizendo que não existem abusos.

Sim, alguns de nós são, eu diria, mais cansativos

Não vivemos todos nossos problemas sempre com a mesma intensidade e não somos sempre igualmente agradáveis e fáceis, nem igualmente chatos/difíceis/problemáticos. É claro que isso não é assim. Temos histórias únicas e vivemos situações diferentes. E é possível que, nesse contexto, alguns de nós sejam, eu diria, mais cansativos.

Alguém solitário pode ter a tendência de “grudar” em outras pessoas, alguém com uma enfermidade crônica pode ter a tendência de falar o tempo todo de sua doença, uma pessoa desempregada pode chatear com suas preocupações financeiras e quem que sofre de carência afetiva pode realmente tentar sugar nosso afeto. Tudo isso existe.

Mas penso que deveríamos ser mais complacentes com as pessoas à nossa volta, reconhecer que cada um de nós é difícil de seu modo e que, por mais problemática uma pessoa possa nos parecer, não temos o direito de classificá-la desse ou daquele modo, de julgá-la ou mesmo menosprezá-la, mesmo porque aquela característica que tanto nos incomoda naquela pessoa pode nos afetar amanhã, bastando que nós mesmos, seja lá por qual motivo, terminemos entrando na mesma situação na qual ela vive hoje.

Muito mais importante que criticar as pessoas que achamos difíceis seria tomar consciência de nossa imperfeição humana, de que somos todos limitados e “defeituosos” de nossa maneira e que, normalmente, uma pessoa “difícil” não é assim porque ela quer, mas que isso é fruto das circunstâncias que viveu até agora ou que vive no momento.

O comportamento difícil pode ser um pedido de ajuda

O comportamento difícil de alguém pode ser, muitas vezes, um pedido de ajuda: “Eu nunca fui amado. Por favor, me ame!”, “Sou solitário. Por favor, me faça companhia!”, “Não tenho com quem conversar. Por favor, me escute”.

Acho indispensável sintonizar a antena para perceber isso, ao invés de rejeitar, menosprezar e julgar pessoas assim. Reconhecer o pedido de ajuda atrás do comportamento problemático pode contribuir para que possamos conhecer e entender melhor a pessoa. E, no final das contas, somos nós mesmos que decidimos se queremos e podemos ajudá-la ou não.

Sim, há abusos

Certas pessoas não respeitam determinados limites e exigem uma paciência maior que aquela que podemos oferecer. Isso é cansativo. Aqui seria muito útil saber dizer claramente “Não!” e definir os próprios limites de envolvimento com problemas alheios.

É claro que não é certo que pessoas nos “assaltem” com seus problemas, nos ocupem mais do que estamos dispostos e nos usem para despejar seu “lixo emocional”.

Não é certo que certas pessoas, por mais que sofram, acreditem que temos a obrigação de escutar sua história e suas lamentações e de dividir com elas seu sofrimento. É louvável e humano quando temos tempo, disposição e paciência para isso, mas não é nossa obrigação!

E não é certo que elas projetem seus problemas em outras pessoas. Projeção sempre é injusta. Mas aqui seria essencial perceber que nós também projetamos quando reclamamos dessas pessoas.

Sobre pessoas difíceis, ou seja: sobre mim e sobre você

Projetamos nossa incapacidade de dizer “Não!”

Sim, projetamos nelas nossa incapacidade de impor os próprios limites e dizer “Não!”. Se alguém está sendo difícil em sua vida, torrando sua paciência, enchendo seu saco, tomando seu tempo e roubando sua energia e você deixa, ficar reclamando da pessoa depois não seria uma tentativa de desviar o foco da sua própria incapacidade?

Então, quando algum “problemático” não lhe fizer bem, dando-lhe o sentimento de saco cheio ou de abuso de sua boa vontade, não reclame dele. Faz mais sentido perguntar a si mesmo o porquê de você permitir que ele faça isso. E se você sofre por não saber dizer “Não!” quando alguém “problemático” não respeita seus limites, ouso indagar: será que, nesse ponto, o ”problemático” não seria você? 😉

Gustl Rosenkranz

Blogueiro residente em Berlim. Escrevo sem luvas porque tocar é importante. Minha formação, eu diria, foram duas mulheres. A primeira foi minha mãe, que acreditou muito em mim e me ensinou a me virar neste mundo, dando-me exemplo, lutando, correndo atrás, mas sem nunca querer nada que não fosse fruto do próprio trabalho, não tendo muito, mas sempre partilhando o que tinha, sem nunca reclamar e sempre repetindo que eu usasse minha cabeça para aquilo que ela melhor sabe fazer: pensar. A outra foi minha avó, com quem tive muitas conversas longas e que me ensinou muito sobre a vida e sobre o que ela via por trás das coisas, e que também dizia que eu realmente deveria usar a cabeça para pensar, mas sem nunca deixar de usar o coração para sentir. Essas duas mulheres sensacionais foram minha formação básica. O que veio depois, foi só complemento. www.gustl-rosenkranz.de

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.

7 COMENTÁRIOS

  1. Os generosos se esgotarão em absorver os problemas alheios e esquecerem de si, e aprender a dizer não é o primeiro passo para ser justo consigo (consequentemente com os outros). Acho bom perceber o quanto a posição de vítima nessa situação é confortável e manipuladora.
    Os egoístas nunca saciarão a sede de seus desejos (escrupulosos ou não), dificilmente (pra não dizer impossível) estes deixaram de se importar apenas consigo. Tanto o egoísta quanto o generoso limitam as pessoas ao seu redor de sentirem, “você não pode se magoar comigo”, “não pode sentir raiva de mim”, “eu sou perfeito”. Então esses dois perfis se enroscam até alguém, comunmente o generoso, se esgotar.
    Os justos serão responsáveis pelas suas vidas e sua felicidade. Acredito que entre pessoas difíceis que todos somos, os justos se equilibram em assim ser.

    Ótimo texto, a construção inicial me deixou com o pé atrás quanto a forma que estava sendo conduzida. Porém o último parágrafo foi cruscial para construir o cuidado que temos que ter consigo, para sermos responsáveis pelos nossos limites e aprender sobre as possibilidades existentes dentro destes. Parabéns!

  2. Muito legal Jesus nos ensina exatamente isso é eu concordo que assim poderíamos fazer um mundo melhor, mas somos humanos e francamente o primordial em minha vida e fazer a diferença sendo do bem gerando respeito e gentileza, porém onde gera somente desrespeito e grosseiras ainda procuro ficar de loge, evitar e me poupar, gosto demais de mim……estou treinando pra chegar até aí onde vc esta !!!! Valeu!! Encantada com a matéria!!!

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