Nudez
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Nudez

Ter contato com a alma nua nos faz saber exatamente quem somos e quem queremos ser.

Pensamento acelerado. Preciso fazer, preciso responder, preciso corresponder às expectativas loucas desse mundo insano (?).

De repente, olho no espelho e vejo sinais de que o tempo está passando.

Maquiagem. Filtro nas fotos. Preciso disfarçar minha idade. Não quero parecer quem sou. Quero segurar a folha do calendário e agarrar a juventude que insiste em escorrer entre os meus dedos.

Me ocupo. Me preocupo. Me apresso. Quanto mais fizer, mais produzir, mais sentido haverá em tudo isso aqui (?).

Chego em casa, tiro a roupa do trabalho. Tiro a roupa da rua. Coloco a roupa de casa. Mas, não me sinto em casa. É que a alma continua vestida. Muito bem vestida por sinal. Arrumada para o baile de gala da rede social, onde ela já vai desfilar e receber aplausos. Ego. Narciso. “Espelho, espelho meu, existe alguém melhor que eu? ”.

Com o tempo, de tão vestida e arrumada, a gente nem conhece mais a própria alma.

Um dia, já cansada de tanto andar arrumada, a alma pede para ser despida. Ela implora por um momento sem máscara.

Com a alma nua, diante do espelho do pensamento, o primeiro instante é de timidez, o segundo é de liberdade. Esvaziar a mente só para ver a alma de pertinho, sem as camadas que antes a cobriam: pressões, expectativas, cobranças, idealizações…

Nua, a alma é mais leve. A beleza verdadeira dela aparece. Sua simplicidade e autenticidade superam todo ornamento vazio que outrora lhe pesava os ombros.

Sem os brilhos artificiais da Cidade das Vaidades, a alma é pura, quase infantil. A alma sorri livremente e respira aliviada.

O contato com a nudez da alma desembota os sentidos. Faz soprar um vento fresco que invade a gente e varre a poeira que a pressa dos dias fez acumular. Passamos a prestar atenção no que realmente importa. Tudo fica tão claro e limpo. Reavaliamos nossas urgências e percebemos o quão tóxicos nossos pensamentos estavam.

O dia seguinte chega. Hora de se vestir para sair. E o que a alma vai usar? O que ela quiser. Ter contato com a alma nua nos faz saber exatamente quem somos e quem queremos ser. Ela pode se vestir, mas não irá se disfarçar.

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Sobre o autor/a autora

Débora Duarte
Débora DuarteProfessora e Consultora de imagem

Débora Duarte é professora de História e consultora de imagem, mãe da Isabela e esposa do Felipe. Fascinada pela vida em todos os sentidos, busca refletir sobre seus diversos aspectos, dos mais sutis e corriqueiros aos mais complexos e profundos.

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