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O furacão Irma e vidas que não têm o mesmo valor

O furacão Irma e vidas que não têm o mesmo valor
Enquanto o furacão ainda destruía muitas existências no Caribe, já deixamos de dar atenção a isso para se preocupar com o estrago que ele faria nos Estados Unidos, mostrando claramente, mais uma vez, que a vida de uns é mais valorizada que a de outros.

Um aquecimento global é global, como o nome já diz, o que significa que atingirá todos os cantos e habitantes da Terra. O mundo está mudando, o clima também e a tendência é a de aumentar o número de catástrofes climáticas. E esse aquecimento global não é algo que ocorrerá no futuro, mas que já está aí, com consequências já hoje mensuráveis.

Acabamos de ver o furacão Irma, que devastou o Caribe e prosseguiu para os Estados Unidos. Pelo jeito, temos que ir nos acostumando com isso, já que a tendência é piorar. O mundo continua aquecendo e ainda insistimos em não tomar consciência da urgência que isso representa para a humanidade e para todo o globo.

O furacão Irma e vidas que não têm o mesmo valor

Irma não só nos mostra que os problemas climáticos já começaram, ele mostra algo ainda muito pior e mais assustador: todos serão atingidos pelas consequências do aquecimento do planeta, mas nem todos serão ajudados, nem todos serão socorridos na hora do sufoco e nem todos receberão a mesma atenção e o mesmo interesse, pois, definitivamente, não temos o mesmo valor.

Sim, que percamos a ilusão de que nossas vidas teriam o mesmo valor. Como já tratei em outro artigo (Quanto vale uma vida humana?), que escrevi sobre refugiados morrendo no Mar Mediterrâneo sem que a Europa reagisse da forma devida, a vida de um ser humano vale mais ou menos, a depender de sua origem, a depender de quem se trata.

O furacão Irma confrontou-me mais uma vez com essa triste realidade. Fiquei triste e preocupado ao saber que ele estava a destruir cidades e povoados no Caribe, quis me informar e comecei a acompanhar as notícias sobre o assunto.

Pois bem, quando comecei a acompanhar a coisa, soube que Irma estava passando pelas ilhas Antígua e Barbuda, Saint-Martin e Saint-Barthélemy e se noticiava sobre isso. Ainda houve algumas matérias sobre a ajuda inglesa, francesa e holandesa para suas dependências no Caribe.

Só que o grande interesse da mídia pelo Caribe durou pouco, pois logo se ficou sabendo que Irma chegaria à Flórida. Então, ao invés de prosseguir com notícias sobre o que estava acontecendo no Caribe, começou-se a especular sobre o futuro e sobre o que poderia acontecer quando Irma chegasse aos EUA.

O que ocorria no Haiti, em Cuba ou na República Dominicana foi para segundo ou terceiro plano, o que me passou mais uma vez a impressão de que a vida humana realmente não tem o mesmo valor, já que possíveis mortes e danos futuros nos EUA pareciam mais importantes e mais dignos de serem noticiados que as mortes e os danos que já tinham ocorrido ou ainda estavam ocorrendo nesses outros países. Ou seja, uma possível futura catástrofe nos Estados Unidos (naquele momento, ninguém ainda sabia o que aconteceria por lá) foi mais importante para as mídias que a catástrofe que já estava acontecendo em países caribenhos.

Nem mesmo pelo Haiti, um país tão castigado pela pobreza e que nunca se recuperou de terremotos do passado, foi digno de qualquer interesse decente.

O que ocorreu na Flórida me entristece igualmente. É algo horrível se alguém morre em Miami por causa de um furacão, claro, mas não é menos triste (e menos digno de atenção) se esse mesmo furacão mata em Havana, Porto Príncipe ou Santo Domingo.

Precisamos parar de ser hipócritas e discursar bonito sobre a dignidade humana e a igualdade entre todos nós. Ou podemos manter o discurso, mas então precisaríamos mudar a realidade, que é bem diferente do que pregamos.

Sejamos sinceros e admitamos que há algo de errado, já que todos sabemos que a vida humana não tem o mesmo valor. Ou será que nunca percebemos uma diferença entre a morte violenta de uma criança pobre e a do filho de um empresário rico? Ou será que nunca percebemos que há um interesse enorme por um atentado terrorista na Europa, enquanto nada ou muito pouco nos interessamos por um atentado terrorista na África ou no Oriente Médio, mesmo quando por lá morre muito mais gente que em atentados europeus?

Confesso que isso me deixa triste e indignado e que tenho muita dificuldade de entender tanta falta de nexo e tanta hipocrisia em nós mesmos, seres humanos, que nos desqualificamos e nos desvalorizamos ao deixar de reconhecer que temos todos o mesmo direito de viver e sobreviver.

Revolto-me todas as vezes que escuto ou leio que refugiados continuam morrendo afogados no Mar Mediterrâneo ao tentarem entrar na Europa. Eles arriscam suas vidas por não terem opção, por fugirem de terror, guerras, ditaduras, desemprego e fome e por não haver para eles (gente africana, maioria negra e pobre!) uma forma de imigrar legalmente no Velho Continente.

E me revolto mais ainda quando escuto que a Europa tenta solucionar o problema mandando os refugiados para a Líbia, um país desgovernado, entregue a milícias fora-da-lei, para que sejam entocados em abrigos que mais se assemelham a campos de concentração, onde são violentados, torturados e maltratados e onde não há qualquer respeito por sua dignidade. Tenho certeza de que jamais se aceitaria que cidadãos europeus fossem encarcerados do mesmo jeito.

O egoísmo europeu e a xenofobia que se espalha cada vez mais pelo continente fazem com que se busque primordialmente uma forma de manter essa “gente de segunda categoria” longe daqui, a qualquer preço, mesmo que esse preço vá contra todos os princípios que a Europa (pelo menos oficialmente) defende.

Ontem mesmo, a Alemanha deportou oito pessoas para o Afeganistão, um país que ainda sofre com guerra e terror. Veja só: essas pessoas foram deportadas para lá com o governo alemão supondo que seria um país seguro. Mas seguro somente para essas pessoas, pois, ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha não recomenda que alemães viajem para lá por causa do grande perigo de atentados que existe no país. Novamente vemos como vidas têm valores diferentes.

O que não entendo é como podemos ser tão medíocres, tão egoístas e tão perversos sem que sintamos vergonha disso. Como podemos não nos envergonhar desse papel? E como podemos ser tão burros e ainda supor que o ser humano seria uma espécie inteligente?

Se fôssemos inteligentes, reconheceríamos o problema, registraríamos que o aquecimento global atingirá a todos nós e começaríamos logo a cuidar disso e a buscar soluções justas, que valham para todo mundo e não para somente para aquelas vidas que nós, pelo jeito, julgamos superiores.

E você, ser humano comum e mortal como eu, não pense que apoiar, aceitar ou mesmo ignorar tal absurdo não terá qualquer consequência para sua vida, pois terá. Ou você acha que alguém se interessará em lhe salvar se houver gente “mais valiosa” morrendo ao mesmo tempo que você? Pode ter certeza que não.

É por isso que precisamos fazer de tudo para que nossa desumanidade não termine destruindo toda a humanidade. Se queremos salvar nossa humanidade, precisamos reconhecer que não há diferença de valor entre vidas humanas e que todos, sem exceção, temos o mesmo direito de existir e de ser ajudado e que toda catástrofe ou toda e qualquer ocorrência que envolva sofrimento humano merece a mesma atenção, tanto faz quem são as pessoas e qual é o lugar envolvido. Enquanto não reconhecermos isso, todos nossos discursos bonitos sobre a dignidade humana serão cínicos e hipócritas, vazios e não farão qualquer sentido.

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