O hábito alimentar depende de uma condição humana ou apenas social?
Psicologia & comportamento

O hábito alimentar depende de uma condição humana ou apenas social?

Se seres humanos, deliberadamente, vão ao mercado para comprar produtos de tal ou tal linha, certamente esse ato de se alimentar é baseado num gosto já trabalhado e desenvolvido por meio das fantasias individuais

Hábitos alimentares e outros hábitos são baseados por “proto-hábitos”, que são nossos hábitos de sentimento, ação e pensamento. Deste modo, é da nossa condição, do nosso status, que os hábitos sejam emersos do “gosto”, quer dizer, o gosto de um indivíduo se refere à herança genética da nossa espécie que é atravessada pela cultura e assim, a partir do nascimento, este gosto é desenvolvido por meio dos hábitos de sentimento, ação e pensamento. Isso revela que todo e qualquer ser humano, em qualquer condição social, possui um gosto.

Se seres humanos, deliberadamente, vão ao mercado para comprar produtos de tal ou tal linha, certamente esse ato de se alimentar é baseado num gosto já trabalhado e desenvolvido por meio das fantasias individuais. É comum, por exemplo, podermos notar crianças repudiando certos alimentos, os azedos e amargos normalmente, mas adultos são considerados consumidores desses alimentos, pois alguns desenvolveram seus hábitos alimentares a partir de hábitos de sentimento, ação e pensamento que, no viés da fantasia, determinam o gosto do agente para este tipo de consumo.

Seria um erro crasso tentar impor alimentos para seres humanos considerando que alguns não possuem hábitos alimentares, já que se desconsidera, nesse mesmo ato, que todos nós, atravessados pela cultura, pela linguagem, possuímos um gosto. E isso independe da classe social ou da margem de pobreza, já que a própria constituição de sujeito, ou seja, o próprio desenvolvimento de um ser humano prevê de imediato a significação do gosto.

O hábito alimentar depende de uma condição humana ou apenas social?

Astronautas, entusiastas de cápsulas, bulímicos e anoréxicos são casos específicos que trabalham a significação do gosto por meio de necessidades, desejos e sintomas específicos. Ainda, é preciso notar que em casos de desnutrição grave, os primeiros passos do tratamento são realizados por meio de dietas líquidas e suplementos. Persistir na lógica ruim de que o hábito alimentar pode ser medido segundo localizações sociais é, de certa forma, atentar contra a condição humana, porque é denegar, pela via do cinismo, o outro como semelhante; como um erro Ético, só poderia ser corrigido pela autocrítica.

Este texto foi elaborado com base em pesquisas realizadas a partir de obras de pensadores, filósofos e cientistas, como: Carlo Ginzburg, Charles Sanders Peirce, Claude Lévi-Strauss, Dany-Robert Dufour, Hannah Arendt, Jacques Lacan, Janine Chasseguet-Smirgel, Maurice Merleau-Ponty, Patrick Vignoles, Peter Sloterdijk, Sigmund Freud, Vincent Colapietro e Winfried Nöth.

Leia também:

Sobre o autor/a autora

Felipe Bueno
Felipe Bueno

Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

Escreva um comentário

Clique aqui para postar um comentário

Curta Caminhos no Facebook