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Filosofia Religião & Espiritualidade

O medo e o marketing religioso: Saramago e Schopenhauer

O medo e o marketing religioso: Saramago e Schopenhauer
O Demônio, sem dúvida, é a maior estratégia de marketing para o comércio religioso
Por João Neto Pitta

Se a religião fosse um carro, sua gasolina, provavelmente, seria o medo. Nada movimenta mais o comércio espiritual do que a incerteza, a frouxidão e o Pânico. Somos domados pela nossa temeridade ao desconhecido.

Não é à toa que, desde o prelúdio das instituições religiosas, pregam-nos o final dos tempos. Peste negra, HIV e ataque às torres gêmeas foram alguns dos acontecimentos que serviram de subsídio ao ludíbrio de alguns ardilosos mercadores da fé, que curiosamente, em uma tentativa de nos convencer (ameaçar!), preferem dizer que nós, meros pecadores, iremos para o inferno – no caso de recusarmos Deus – ao invés de dizerem que não iremos para o céu.

Traduzindo: o discurso que se apropria do medo é muito mais usado e eficiente para convencer ou constranger pessoas não religiosas.

O que escancara o real sentido por traz das vituperadas aos ímpios, são seres que queimarão por toda a eternidade, pelo simples fato de não compartilhar uma crença religiosa.

Faça um teste você mesmo: vá à igreja, qualquer igreja, e você, leitor, constatará que a narrativa que envolve o culto será algo que gira em torno do ”fim dos tempos”, ou apocalipse – remexidos em uma pitada de declínio dos valores morais.

Ainda que você seja um religioso, reflita se o que lhe mantém na igreja é o seu medo ou o seu amor, acredito que se possa separar os religiosos nestas duas categorias: os que só temem e os que amam. Há de verdade quem se sente enlevado pela narrativa do amor de Deus e da humildade, aliás, boa parte do público religioso. Porém, o medo tem sido a ferramenta mais utilizada.

O Demônio, sem dúvida, é a maior estratégia de marketing para o comércio religioso, repare que, apesar de Lúcifer ser descrito como o anjo mais bonito do Céu, em todas as suas aparições tanto no cinema, quanto descritas por pastores e padres, são sempre na figura de um sujeito tenebroso, com chifres, feio e com um rabinho abanando – estas são as imagens que circulam sobre o nosso imaginário quando pensamos no Diabo. É tudo Marketing.

Schopenhauer asseverava que tanto a luz como a religião precisam da escuridão para brilhar. Ora, sendo assim, podemos compreender que a verdadeira pedra fundamental da religião não é Deus e, sim, o demônio. O que seria, por exemplo, do cristianismo sem Lúcifer? Sem nenhum inferno para castigar os pecadores? O Demônio é certamente o protagonista da narrativa religiosa, ele é o que mais convence, o que mais converte, com o método mais interessante e potente de todos: O medo.

José Saramago, astuto como era, trouxe-nos uma perspectiva bem parecida em seu livro ”O evangelho segundo Jesus Cristo”, quando em um dos capítulos, o demônio com toda a sua sagacidade, percebe que essa guerra contra Deus não o levaria a lugar algum; então decide converter-se ao cristianismo. Ao comunicar ao Todo Poderoso a sua decisão; Deus, pela primeira vez, mostra-se assustado e responde ao demônio: ”Você não pode se converter porque sem você eu não existo”.

O medo sempre criou em cima de nós fantasmas que não existem; o medo nos fez e nos faz crer que a simples ventania era, na verdade, passos ou vozes; o medo nos faz ver monstros em um aglomerado de lençóis; O medo nos faz ter a necessidade de crer em algo que transcenda a morte; O medo nos faz acreditar em Deus, mas, acima de tudo, ter fé, plena fé no Demônio.

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Sobre o autor/a autora

João Neto Pitta
João Neto Pitta

Colunista dos sites Genialmente louco e Caminhos, estudante de Direito e Filosofia, poeta solitário de textos escondidos e, não poderia deixar de dizer, um grande fã de Shakespeare. Eu, você, ele… Tanto faz! Vamos todos morrer um dia.


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