Pais infalíveis, filhos machucados.
Família Psicologia & comportamento

Pais infalíveis, filhos machucados.

Por Felipe Bueno

O que muitos pais não compreendem é que o narcisismo na relação com seus filhos pode criar um peso tão grande que pode levá-los à depressão. Filhos machucados interiormente, nesse sentido, acabam por revelar relações dolorosas sobre pais e mães insaciáveis quanto ao amor que pretendem receber.

É muito comum notar que pais e mães estejam preocupados quando se pensa na criação de seus filhos. Isso acontece naturalmente, já que os sujeitos são levados, na maioria das vezes e com relação aos casos sem condições psicopatológicas graves, a passar seus melhores valores para as novas gerações, garantindo a melhora e a perpetuação da civilização. Todavia, a relação entre as pessoas que encarnam o papel de mãe e de pai e seus filhos é sempre uma relação muito complexa.

Os filhos, desde muito cedo, apreendem de seus pais os mais variados exemplos, desde um jeito de caminhar até tons e modos de falar em determinadas situações. Os sujeitos pequenos precisam imitar na tentativa de angariar uma identidade própria, que é construída na relação com as pessoas que os criam e é baseada na identificação.

Ocorre que, no sentido oposto, ou seja, no sentido de um pai ou uma mãe em direção a um filho, um sujeito pode vacilar pelo excesso. Esse fato é observável quando o mimo corresponde a um excesso que é misto de expectativas, julgamentos e barganha. Expectativa sobre o que os pais desejam que seus filhos sejam, julgamentos quando o desapontamento ocorre e barganha quando a cobrança, portanto, encerra e novamente retroalimenta esse ciclo vicioso de pais sedentos pela realização de seus desejos e pelo amor cada vez maior de seus filhos. Essa tentativa de se tornar infalível perante um filho (porque entre o mostrar-se perfeito e o mimo existe uma conexão íntima) é certamente uma angústia que se deposita na criança, pois revela uma grande necessidade de ser amado, de ser reconhecido como bom, como especial, etc. São hábitos de sentimento que vão sendo elaborados nessa intersubjetividade.

Essas impressões de vivência sobre expectativas, julgamentos e cobranças se enraízam na psiquê de um sujeito e podem resultar em várias vias pelas quais seu ego é levado para simbolizar tudo isso. Alguns se acomodam e mimados se tornam, outros não se traumatizam tanto e conseguem balizar essas situações de modo mais sublime, porém existem os que se machucam enormemente, porque dentro de si fica aquele sentimento de que nunca é o bastante.

Para que se evite a chegada de complicações severas na relação entre pais e filhos, sobre as quais a depressão pode sim se tornar um item real, é preciso exercitar o desapego com relação aos desejos que se tem do outro. E isso, em determinada altura do campeonato, pode servir para os dois lados, quando pais e filhos encontram-se adultos ou, no mínimo, adultos e adolescentes. Desejar que o outro seja de tal ou tal forma é falta de respeito consigo e com o outro. E, mais ainda, é dar “murro em ponta de faca” como se diz por aí. A mudança, para melhor, ocorre na medida em que o respeito, a escuta e o viver o presente com o outro ensejam um contato mais decente. Afinal, só temos aquilo que podemos abrir mão, do contrário não temos, somos “tidos”.

Sobre o autor/a autora

Felipe Bueno
Felipe Bueno

Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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