Psicologia & comportamento

Pensamentos selvagens

Pensamentos selvagens
Um pensamento selvagem é aquele tipo de ideia rebelde que surge na mente, mas que desconcerta o sujeito.

Um pensamento selvagem é aquele tipo de ideia que surge na mente, mas que desconcerta o sujeito. Rebelde, incontrolado, o pensamento selvagem pode ser descrito naquelas situações em que o indivíduo acaba pensando, por exemplo, em jogar seu celular pela janela do ônibus, gritar no meio de uma palestra, ficar nu diante da família, chutar uma mulher grávida, bater em alguém sem motivo algum. Pensa, mas não age, e sente-se culpado. Muitas pessoas, por vergonha e culpa, deixam de falar sobre isso e acabam por desenvolver problemas psíquicos pela falta de oportunidade de conversa e de estudos mais claros que se debruçam sobre essa questão. Enfim, o que poderia ser um pensamento selvagem?

É delicado e, talvez, ainda desconcertante imaginar que a condição humana é uma condição de atravessamento, clivagem. Quer dizer, o ser humano, como ser mortal, sexuado e falante, não possui exatamente um ser interior, nuclearizado, formado, capacitado, que serviria de guia para as ações ou, inclusive, que pudesse ser levado a uma consulta interna. O ser humano, desde as fases mais elementares de sua constituição de sujeito (após o nascimento), é atravessado por estádios de metamorfose e contorno de seu próprio eu. O eu, portanto, emerge a partir de uma clivagem, de uma cisão, num período bem precoce e que é quando a criança se vê realisticamente separada da pessoa que lhe compõe a função materna.

A situação do eu cindido é sempre uma situação traumática e por essa razão, como se trata de um trauma, existem impressões que se fixam no inconsciente. Essas impressões se densenvolvem não como hábito, porque o hábito exige autocontrole e estamos aqui discorrendo sobre um pensamento que não tem controle, mas como ressonância de dimensões do inconsciente que se desenrolaram desde o recalque inicial (do que se refere ao sujeito separado da pessoa que o cria). Há ressonância porque há interação, e algumas interações podem fazer com que do inconsciente surgam pensamentos selvagens, mesmo que, num primeiro momento, tais pensamentos possam não fazer sentido algum com a situação de interação do momento presente. Em teoria, parece que realmente há a falta de sentido, pois são ideias que se formam a partir de agrupamentos de repercussões provocados pela relação do sujeito com as leis da linguagem.

É necessário vislumbrar esses pensamentos como algo que aparece para boicotar, desestabilizar, desconcertar. Uma situação de alegria, ou uma situação corriqueira, torna-se um momento de crise, dúvida, porque da emersão da ideia selvagem há sempre um momento de angústia que a precede e um momento de culpa que a sucede. Normalmente as pessoas procuram ajuda na medida em que tais ideias surgem com uma frequência que atrapalha realmente suas vidas sociais. Importante dizer que, como ressonância de um geral da condição humana, os pensamentos selvagens devem ser comuns a todos, mas para uma parcela da população isso pode ser motivo para a procura de um tratamento.

Pensamentos selvagens

 

Vale lembrar que os pensamentos selvagens são tratados aqui na condição de itens da vida psíquica de pessoas neurotizadas, ou seja, não se aplica exatamente nas condições de psicose, por exemplo, que abarca os tipos de indivíduos que não apenas pensam como também partem para a ação daquilo que pensaram.

A situação do pensamento selvagem parece ser a de um índice tanto de um empobrecimento do eu (por dificuldades vividas pelo sujeito no agora) como também de um eco que convoca a inscrição da palavra nesse vazio, ou seja, que revela espaços da psiquê onde é possível, pela linguagem (seja numa análise, num esporte, numa arte marcial, numa prática de meditação), criar novos sentidos para a vida.

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Sobre o autor

Felipe Bueno

Felipe Bueno

Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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