Presente para Eduarda
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Presente para Eduarda

Um presente melhor que qualquer brinquedo que pode dar a uma criança. Um lindo texto que toca pela sinceridade e pela profundidade das palavras.

De antemão, não confunda, eu não sou como sua avó ou sua finada tia, eu não sou do tipo que escreve cartas de amor. A verdade é que eu precisava te dar um presente, mas no momento a grana está curta. Te comprar um brinquedo (que provavelmente você não usaria), ou uma roupa (que logo não te serviria), implicaria em me deixar sem cerveja por um final de semana, e, convenhamos, isto não seria bom para ninguém.

Faça algo você mesmo, me disseram, mas o problema é que eu não sou bom em nada e muito menos sei fazer algo. E mesmo se soubesse, o que eu faria para alguém que mede menos de um metro, pesa seis quilos e passa o dia dormindo? Pensei no que eu desejaria se tivesse sua idade, a resposta é o que está em suas mãos: conselhos. Eu desejaria que alguém tivesse me contado, logo no início, como as coisas realmente são. Por isso, considere esta carta como um presente ruim, de um parente idiota, que por não ter dinheiro, resolveu te contar o que ele acha da vida, tendo a audácia de considerar isto um presente.

Acredito que se começa uma carta demostrando apreço e respeito pelo destinatário, pois bem, eu não te amo. Eu gosto de você. Te acho simpática. Você ri para mim toda vez que me olha. Mas eu não te amo. Seus tios, tias, primos e todo o resto te juraram amor eterno desde a primeira vez que te viram, mas, sinto te informar, eles mentiram. Não se engane com os que falam de amor cedo demais, o único amor instantâneo é o amor de mãe. E, em verdade, acho que instantâneo não é a palavra correta, já que vocês passaram nove meses compartilhando tudo. Amor requer tempo e trabalho. Amor, Eduarda, é dar sentido à vida. Só se ama o insubstituível. Todo o resto é paixão, empatia e afinidade. Então melhor dizendo, eu ainda não amo você, mas espero sinceramente que isto mude.

Você também falará eu te amo sem amar, mas culpa não será sua, a gente acha que ama qualquer coisa até conhecer o verdadeiro amor. Substitui muitos falsos amores até aprender isto, e este é o único dos meus erros que eu espero que você cometa. Procure amar. Tente amar. Ache que esta amando. Quebre seu coração quantas vezes for necessário, só então você entenderá o que aqui te digo. O amor é um paradoxo, complexo aos que imaginam, mas extremamente simples aos que sentem.

Presente para Eduarda

Falando em quebrar corações, quebrarão o seu. Muitas vezes. Inúmeras vezes. Perdoe todas. Vão te sacanear, te decepcionar e tentar te machucar, mas não guarde mágoas. E esta não é aquela baboseira de que devemos ser bonzinhos e mansos, perdoe para que você tenha paz de espirito, para que pensamentos infelizes não te encham o saco. Perdoe para seguir em frente. Perdoar não é pensar no próximo, pelo contrário, é ser egoísta, é não deixar que a merda do outro te atinja duas vezes. Desapego é a melhor resposta para quase tudo nessa vida.

Você também vai machucar muita gente. Seus pais, irmão, amigos e namorados. Querendo ou não, sempre fazemos algo que traz desgosto aos outros, então não se culpe, é impossível passar por essa vida e satisfazer a todos o tempo todo. Mas se eles te amam, vão te perdoar e o perdão é a única prova de amor necessária.

Sabendo disto, desobedeça. Quebre as regras. Passe o condicionador antes do shampoo, coma a sobremesa antes do jantar. Experimente. Não deixe que te imponham tudo. Mas nunca, nunca mesmo, seja um incômodo. Desobedeça sem desrespeitar e saiba quebrar as regras sem que alguém tenha que pagar por isso. Você não precisa deixar que seu pai escolha seu time, ou que sua mãe escolha sua religião, mas quando eles te disserem para ir dormir, vá dormir. Não faça todas as tarefas que a professora mandar, mas tenha brio suficiente para saber resolvê-las quando necessário. Durma na aula, ria na aula, mas nunca seja grossa com seus professores. E isto serve para todo o resto, grosseria é a característica dos idiotas.

O mundo pode ser cruel, por isto você precisa saber se impor. Nunca atire a primeira pedra, mas se atirarem em você, saiba revidar. Não deixe ninguém te tratar mal, se tratarem, lembre-os que você não é nenhuma idiota. Mas resolva seus conflitos em silêncio e de uma vez só, nada de barracos públicos ou brigas prolongadas, mulheres que fazem este tipo de coisa não são valorizadas. E a opinião alheia é importante sim! Por favor não caia nessa baboseira de jovem rebelde de que o que os outros dizem não importa. A imagem que passamos nos abre ou fecha portas, portanto, cuide da sua reputação.

Sua vida pode estar uma porcaria, tudo estar de ponta cabeça, mas alguns minutos de risada com seus amigos pode colocar tudo no lugar. Veja em seus amigos seu porto seguro, se abra com eles e deixe que eles se abram com você. Sem meus amigos, provavelmente eu já teria desistido de muita coisa e seria alguém bem mais triste. Amizade é felicidade, e muitas vezes, sua única felicidade, por isto, valorize-a.

Nunca se esqueça do tempo. Sim, como nos clichês, o tempo muda tudo. O que você tem como prioridade hoje, pode ser insignificante amanhã. O mesmo vale para seus problemas, não se afobe por algo que daqui alguns meses será esquecido. Seja tranquila com o transitório e extremamente rígida com o permanente. Não ligue se você perder aquele show, estragar o trabalho da escola, ou quebrar seu celular, mas pense bem na hora de escolher seu curso superior, onde trabalhar, com quem se casar ou se quer mesmo ter um filho.

Por fim, Eduarda, não leve a vida tão a sério. Seja leve. Prese pela sua paz de espirito. Não pense em inferno, não pense em céu. Não pense em agradar demais. Não pense em fazer demais. Sua única obrigação aqui é ser feliz. E se sua mãe não jogar isto aqui fora, como acredito que ela fará se tiver juízo, leia quando tiver dez anos, e depois com vinte, e depois com trinta, então me conte se algo disto aqui foi útil, ou se realmente eu devia ter escolhido um brinquedo.

Presente para Eduarda

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Sobre o autor/a autora

Luccas Tartuce
Luccas TartuceAdvogado e escritor
Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo.

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