sexta-feira, 29 maio 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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Somos infantis!

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Li no Facebook um post sobre a caça de Pokémons. O autor criticava o comportamento de pessoas adultas, que correm por aí atrás de monstros de fantasia, alguns até mesmo arriscando a própria vida. Não demorou para ele ser atacado por esses “adultos“, que o insultavam (um mal-amado, que não saberia se divertir e não gostava de ver outras pessoas o fazendo, etc.) e ridicularizavam o post, ignorando e, com isso, confirmando a verdade que se escondia por trás dele: somos infantis!

Somos infantis, mas não como as crianças, que em sua infantilidade são inocentes, puras e verdadeiras. Nossa “infantilidade adulta”, ou melhor, nosso infantilismo, não é inocente, não é puro e muito menos verdadeiro: é um comportamento muitas vezes irresponsável, egoísta e uma fuga da realidade.

Não, não há nada de errado em nos divertirmos. Diversão é uma coisa boa, é importante para nosso equilíbrio e bem-estar e é extremamente saudável se comportar de vez em quando como crianças, brincando, fantasiando, distraindo-se e (re)vivendo por um momento a leveza da infância, mas a ênfase aqui está em “de vez em quando”. Problemático é quando essa infantilidade adulta nos rege (quase) todo o tempo.

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É claro que precisamos e devemos nos divertir, mas é infantil ficar buscando novas distrações, assim que a atual acaba ou simplesmente perde a graça (como o brinquedo que a criança deixa largado em algum canto por ter deixado de ser interessante). Como se não bastasse o carnaval, a Páscoa, a Festa de São João, o Natal e o Ano Novo, os inúmeros feriados, os churrascos e chopes nos fins de semana, a boate, as baladas, festas de aniversário, batismo, casamento, formatura e quinze anos, as viagens de férias, os domingos no bar, na praia, na cachoeira ou no estádio/campo de futebol, bate-papos furados e fofocas com amigos, colegas e vizinhos, além dos dias preguiçosos no sofá ou na cama, na frente do computador ou da televisão, há ainda necessidade de correr atrás de monstrinhos coloridos criados por uma megaempresa japonesa? Precisamos realmente participar de qualquer evento, qualquer bobagem, qualquer campanha de marketing que cruza nosso caminho? E, sejamos sinceros, onde é que uma pessoa adulta, que teoricamente trabalha, estuda ou cuida da casa e das crianças ou tenta administrar sua vida e transformar seu mundo de alguma forma, onde é que essa pessoa acha tempo para isso? Se há tanto tempo sobrando para correr atrás de distrações, por mais bobas que sejam, isso só pode significar que esse tempo tem de faltar para cuidar de coisas sérias. Lógico, não?

pokemonAgora repare: critico esse comportamento, mas critico falando sempre de nós, no plural, pois creio que nenhum ser humano está isento de preferir fugir da realidade e se negar a assumir a responsabilidade por sua vida adulta e sua parcela de responsabilidade pelo mundo à sua volta. Não, nenhum de nós está livre disso e todos conhecemos esses momentos, quando preferimos ser infantis e fugir do fardo que é ser adulto e ter de cuidar do próprio nariz. E tem aqueles que nem sabem que há outras opções, já que nunca conheceram uma realidade diferente, verdadeiramente adulta. Até acho que nós todos temos esse direito, o direito de ser infantil, o direito de renegar a própria responsabilidade e a própria realidade, de buscar distrações e até mesmo correr atrás de Pikachu & Co., já que cada um de nós tem a liberdade de viver sua vida como bem achar e entender, dentro de suas possibilidades.

Todavia, o mínimo que se pode esperar de uma pessoa adulta é que ela tenha a coragem de assumir o caminho que escolheu, aceitando, por exemplo, que prefere seguir o caminho aparentemente mais fácil e se distrair o máximo possível. É de se esperar que assuma sua postura e suas opções, ao invés de ficar inventado histórias abstrusas para justificar seu comportamento. Mas é isso que vejo por aí: desculpas esfarrapadas, explicações esdrúxulas e justificativas sem qualquer nexo para convencer os outros e a si mesmo que a própria postura faria qualquer sentido.

Recordo-me de um conhecido baiano, que encontrei na praia do Farol da Barra, em Salvador, que já chegou me convidando para ir com ele a uma festa, mais tarde, à noite. Ele é alguém assim, que pula de uma distração para a próxima, passa o ano esperando pelo carnaval, não perde uma balada, vai a barzinhos e boates mais de uma vez por semana e a todos os jogos do Esporte Clube Vitória e nunca diz não a qualquer chance de se divertir. Até aí, tudo bem. É o caminho dele, que respeito e sempre respeitei, mesmo que sempre deixei claro que meu caminho seria outro. Mas o comportamento dele tinha um efeito colateral preocupante, que era o alto consumo de bebidas alcoólicas, que comumente regam esses tipos de evento. Observei que ele estava bebendo muito, gastando muito dinheiro e aos poucos correndo risco de se arruinar. Resolvi então conversar com ele e expor minha preocupação.

Pois bem, ele primeiro negou que vivia de festa em festa, supondo que seria só uma festa de vez em quando e somente nos finais de semana. “Mas hoje é terca-feira!”, disse eu, ficando surpreso com sua reação: “Mas é Ano Novo!”, disse ele. Não era Ano Novo. Era 6 de janeiro. Quando o alertei para isso, ele ficou zangado, disse que não queria saber, que eu estaria exagerando e pediu que eu o deixasse em paz. Confesso que ainda tentei por um tempo, mas terminei respeitando e deixando as coisas como eram.

Problemático em seu comportamento nem é o comportamento em si, mas o fato de negar algo evidente, de tentar torcer a realidade de forma a se sentir melhor na própria pele e achar que está agindo de forma adulta e sensata, quando na verdade demonstra um comportamento fútil e não muito maduro. É exatamente essa negação das coisas, esse não querer enxergar a vida como é, esse supor que está se comportando como uma pessoa adulta, mesmo sem o estar, que classifico como algo extremamente infantil.

Somos infantis assim em muitas situações:

Somos infantis quando permanecemos em relacionamentos voluntários (voluntário é qualquer relacionamento que não tenha elo familiar ou de trabalho!) que não nos fazem bem e reclamamos do outro todo o tempo, como se ele fosse responsável por nossa opção de ficar.

Somos infantis quando guardamos rancor e ficamos de picuinha com pessoas que acreditamos que nos fizeram mal no passado, ao invés de perdoar, livrar-se dessa carga e seguir em frente.

Somos infantis quando ficamos chateados por alguém simplesmente ter uma opinião diferente, por não concordarmos com sua forma de ver a vida, mas ao mesmo tempo exigimos que outras pessoas aceitem nossa perspectiva. Somos infantis quando acreditamos conhecer a verdade e que ela seria a única verdade válida.

Somos infantis quando erramos e não assumimos o erro, culpando outros, responsabilizando algo ou alguém, em vez de simplesmente aceitarmos que errar é humano e que, como humanos, todos nós temos o direito de errar, sem precisar ficar inventando desculpas para isso.

Somos infantis quando deixamos as coisas a fazer de lado e passamos o dia “perambulando” na internet, reclamando depois que o tempo passa tão rápido que não damos conta de nada.

Somos infantis quando gastamos mais do que podemos, mas lamentamos a situação financeira ruim. E somos infantis quando gastamos dinheiro, compramos uma roupa ou outra coisa qualquer, mas chegamos em casa mentindo, dizendo que foi um presente ou uma promoção irresistível, ao invés de assumir, como adultos, que compramos com nosso dinheiro e ponto.

Somos infantis quando usamos a fraqueza do outro para humilhá-lo, diminuí-lo, discriminá-lo, ao invés de simplesmente assumir nossa autoestima baixa e os complexos de inferioridade que nos fazem querer ser melhores que os demais para que nos sintamos melhor em nossa medíocre existência.

E somos infantis quando corremos atrás de Pokémons, como baratas tontas, de cabeça baixa e olhos fixados no celular, não assumindo o direito de fazê-lo, de se comportar de forma tão abobalhada, buscando explicações e justificativas sem nexo e, pior ainda, invertendo valores e querendo convencer que pessoas que não participam dessa “caça a monstros virtuais” teriam algum problema só por abrir mão de ser marionete de marketing de uma empresa.

Somos infantis nessas e em muitas outras situações e não há nada de errado em se comportar dessa ou daquela maneira. Tudo é válido. O desvio começa quando não assumimos isso, quando somos uma coisa, mas fazemos questão de sermos vistos como outra, quando nos comportamos de forma imatura, mas exigimos que nos tratemos como pessoas maduras, quando nos posicionamos e optamos, mas não assumimos a própria responsabilidade por nosso posicionamento ou opção (ou mesmo quando não nos posicionamos e não optamos e responsabilizamos outras pessoas ou alguma coisa por nossa falta de posicionamento ou opção).

Então, sejamos como e o que quisermos: caçadores de Pokémons, marionetes de empresas, birrentos na internet, beberrões todos os finais de semana, vedetes de shows e comícios, eternas crianças… Somos livres e temos esse direito. Mas sejamos também adultos o suficiente para assumir nossas escolhas.

 

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.
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