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Cotidiano

Pudins, existencialismo e os nós em meu peito

Pudins, existencialismo e os nós em meu peito
O pudim não acabava, o dia não acabava, os problemas não acabavam. Lembrei da noite anterior, quando havia ficado acordado até as cinco da manhã, preocupado com o tudo e pensando no nada. Eu já estava me acostumando com a ideia de ser doido e procurei um psiquiatra.

Meu sócio adora pudins. Em todo lugar que vamos, ele pede um pudim. Mas o daquele dia em questão estava me incomodando. Era um bom pudim, macio, bonito, talvez até valesse seu preço extremamente inflacionado, mas ainda assim eu o olhava com certa estranheza. Discutíamos sobre trabalho, mais especificamente em como explicar para os clientes as incoerências da cabeça de um juiz, e que, não, não dava para levar qualquer ação para o Supremo.

Eu havia substituído minhas diárias dezessete doses de café por uma de chá, e, como você imagina, não é tarefa fácil ensinar um rapaz interiorano os mistérios e delicadezas de tal bebida. Mas eu estava me esforçando, e aquele, que agora me fugiu o nome, com pétalas da índia, maçãs da Inglaterra e alguma coisa da China, era até agradável. Então, como eu ia dizendo, discutíamos sobre trabalho, eu tomava chá e ele comia o maldito pudim.

Ele me ofereceu um pedaço, recusei. Pedi para que terminasse logo, mas ele não estava com pressa e continuava puxando assunto. Foram mais dez minutos que pareceram dez horas. O engraçado é que eu adoro conversar com meu sócio, mas por algum motivo eu estava odiando aquilo, o pudim não acabava, o dia não acabava, os problemas não acabavam. Lembrei da noite anterior, quando havia ficado acordado até as cinco da manhã, preocupado com o tudo e pensando no nada. Era a quarta vez que sentia algo parecido naquela semana e já estava me acostumando com a ideia de ser doido.

“Eu não sou esse tipo de pessoa”, foi esse o pensamento que veio em minha mente quando, pela primeira vez, percebi que estava tendo o que, aparentemente, trata-se de um ataque de ansiedade. E, de fato, até então não era. Já havia passado por muita por muita coisa, mas aguentei todas de cabeça erguida e sorriso no rosto, então porque diabos só agora, quando tudo estava convergindo para o caminho correto, eu resolvia endoidar?

Não nego que há tempos ninguém me liga com uma boa notícia, afinal, vivo de problemas alheios. Também tenho ciência das estranhezas da minha família (aos que conhecem, sim, foi um eufemismo), e que eu também tenho lá minhas incoerências (sim, outro eufemismo). Mas no geral, tudo vai bem. Não há razões, pelo menos não aparentes, para esse tipo de estupidez.

De todo jeito, dias depois lembrei-me daquele trecho de Paris é uma Festa, onde Scott e Hemingway vão até o museu para checarem o tamanho dos pênis das estátuas, após Zelda fazer um comentário maldoso sobre o membro de Scott e quanto aquilo era proporcional a felicidade que ele era capaz de promover à uma mulher. A título de curiosidade, o pênis de um dos mais importantes escritores da história era normal, mas não é este o meu ponto aqui, o que quero dizer é: se esses dois gênios eram capazes de tamanha idiotice após apenas um comentário negativo, provavelmente eu também não era tão blindado quanto imaginava ser. Admitindo isto, marquei consulta com um psiquiatra.

Na espera, planejei tudo. Tentaria demonstrar da melhor forma o mal que me afligia. A estranha sensação de incomodo sem causa certa. Começaria explicando que até pouco tempo não ligava para muita coisa e desconhecia a palavra obrigação, mas que atualmente havia me transformado na pessoa mais responsável do mundo, o que, segundo o Google, poderia ser a origem do meu mal. Então reservaria para o final o fato que de uns tempos para cá a maioria das coisas tinha perdido a graça, e que, como diria Sartre, ser um existencialista nos liberta, mas também condena, pois não raras vezes me sentia como Sísifo, desejando um sentido maior, ou que Deus, como contam na catequese, realmente tivesse um plano para mim e eu não fosse obrigado a inventar e me responsabilizar por essa porcaria toda. Mas não tive a chance, a consulta durou exatos sete minutos. Sem me dar a chance de dizer muito mais que bom dia, ele abriu seu armário de remédios, me entregou um e fim. Próximo da fila.

Joguei o remédio no lixo, que se foda, se me dopar for o único jeito de desembaraçar os nós no meu peito, despejarei cerveja em cima e os atarei ainda mais forte. Mas, no final das contas, confesso que foi uma excelente consulta. Percebi que não há caminho fácil para fugir dos meus demônios, e talvez não haja como fugir deles de maneira alguma. Restando-me apenas aceitá-los e participar do seu jogo. Então, da próxima vez em que perder o sono, festejarei madrugada adentro. Quando problemas demais surgirem, tirarei o dia de folga. Quando a vida me parecer sem sentido, a entupirei de diversão. E, claro, quando que meu sócio pedir um pudim, pedirei dois.

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Uma conversa sincera e direta com o Criador, uma confissão de quem busca redenção e orientação por não entender os rumos tomados pela humanidade.

Sobre o autor/a autora

Luccas Tartuce
Luccas TartuceAdvogado e escritor
Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo.

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