Reflexões sobre a padronização da escrita: petições, redações e cartas de amor.
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Reflexões sobre a padronização da escrita: petições, redações e cartas de amor.

Suassuna, como o bom nordestino que era, dizia que não trocava seu “oxente” pelo “ok” de ninguém. Além de demonstrar paixão por sua cultura, podemos extrair disso que, a partir do momento em que se desperta tal identidade, qualquer autor que se preza recusaria passar por um processo de padronização.

Por Luccas Tartuce

Há algum tempo atrás, escrevi alguns parágrafos criticando o rebuscamento e a metodologia da linguagem jurídica sob a ótica de Schopenhauer. Como principal argumento, defendi que os juristas não deveriam utilizar suas peças para exibir seus conhecimentos linguísticos do século retrasado, mas para, sem rodeios ou realces, conversar com o juiz.

À época, talvez por minha inabilidade, alguns leitores confundiram o termo “conversar” com coloquialismo e continuaram a associar uma boa escrita com complexidade e obediência. Hoje, mais maduro, completo: azar o deles. Nem todas conversas são para todos os ouvidos. Mas aos desprendidos destas ilógicas correntes, continuo: a essência da escrita é a comunicação. Então, objetivamente, o melhor escritor é aquele que melhor se comunica. O que melhor passa seu recado. Por isto, insisto na tese que após adquirir certa desenvoltura, o escritor deixa de “escrever” e passa a “conversar” através do papel, como se as letras fossem a própria voz saindo de sua boca.

Reflexões sobre a padronização da escrita: petições, redações e cartas de amor.

Da mesma forma em que certas ocasiões falamos formalmente, podemos conversar desta maneira também no papel. Me tomando como exemplo, nas manhãs ocupo-me em escrever peças jurídicas apoderas de institucionalidades e termos técnicos; já à noite, escrevo centenas de palavrões e gírias enquanto discorro sobre cerveja ou futebol.

Escrever, como qualquer outra coisa, requer certa autenticidade. Ninguém transa igual. Ninguém canta igual. Porque escreveríamos de forma padronizada? A verdade é que se Saramago ou Bukowski escrevessem uma redação do ensino médio, ambos zerariam. Em contrapartida, todas as redações com nota dez seriam praticamente iguais. Pois ensinam por aí que trocar virgulas por pontos pode te render alguns décimos a menos no seu tão sonhado vestibular, criando um molde matemático para uma arte quase subjetiva.

Acredito que a maior preocupação de quem escreve (bem) é imprimir sua voz nas linhas, para que os leitores saibam antes mesmo de ver a assinatura ao final: este é daquele autor. E esta voz só pode ser demonstrada através do estilo. Estilo, a grosso modo, é a manipulação do conteúdo e da forma do texto. Trata-se de adequar as regras gramaticais a seu gosto, mas, ainda assim, obedece-las. É a capacidade de utilizar os instrumentos textuais para ir além do que está disposto na folha, demonstrando sua própria identidade através da abordagem, vocabulário e ritmo.

Padronização da Escrita
Suassuna não trocava seu “oxente” pelo “ok” de ninguém.

Suassuna, como o bom nordestino que era, dizia que não trocava seu “oxente” pelo “ok” de ninguém. Além de demonstrar paixão por sua cultura, podemos extrair disso que, a partir do momento em que se desperta tal identidade, qualquer autor que se preza recusaria passar por um processo de padronização.

Indo além, digo também que nunca deveriam traduzir poesia. Mesmo com toda boa vontade e esforço do tradutor, outra língua nunca será capaz de reproduzir com precisão a essência de um poema. Não se trata apenas de sonoridade, apesar disto fazer uma grande diferença (pergunte ao corvo), pois a própria a escolha das palavras também faz parte da identidade do autor. E há muito mais subjetividade nessas escolhas do que se imagina – há até quem diga que a habilidade de um escritor se baseia nisto. É uma questão cultural, creio. Eccitata, por exemplo, significa tesão, mas não o tesão daqui, entende? Não o tesão aos moldes tupiniquins.

Assim ou assado, em minha imodesta opinião, a única regra a ser seguida é a de Machado: não aborrecer. E o que poderia ser mais chato do que substituir sua identidade por uma receita pré-concebida? Portanto, meu amigo, rebele-se. Utilize o papel, seja em suas petições, redações ou cartas de amor, para mostrar quem é e passar seu recado como há de ser passado: à sua maneira.

Sobre o autor/a autora

Luccas Tartuce
Luccas TartuceAdvogado e escritor
Advogado, herói de botequim, rebelde e pervertido. Escreve sem classe ou motivo digno, como um cachorro que persegue o próprio rabo.

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