Seu cachorro se comporta mal? Fique sabendo: o problema é você!
Mundo animal

Seu cachorro se comporta mal? Fique sabendo: o problema é você!

Se seu cachorro se comporta mal, é difícil, apronta muito, é agressivo ou desobediente, normalmente o problema está na forma errada de lidar com ele.

Muita gente tem problemas com o comportamento de seu cachorro, e essa gente tenta de tudo, procura um treinador, borrifa água no focinho do bicho ou termina procurando o veterinário, achando que o animal tem algum transtorno. O que muitos não entendem é que, na maioria dos casos, quando o cachorro se comporta mal, a causa não está no animal, mas no humano que não sabe lidar corretamente com ele. Antes de esperar que seu animal mude de comportamento, talvez seja necessário que você mude o seu.

Sei que toco num tema desagradável para muitos cachorreiros e sei, por experiência, que muitos vão ignorar o que digo, mas digo assim mesmo: se seu cachorro se comporta mal, normalmente o problema não é ele, mas sim você!

Nós, humanos, queremos a companhia de animais e trazemos cães para casa. Só que, muitas vezes, confundimos as coisas, achamos que o canino pensa e se comporta como um humano, julgando suas atitudes a partir de nossa lógica. Muitos de nós querem ter um cachorro, mas ignoram que é importantíssimo se informar e entender esse novo membro da família e quais são suas necessidades. Sem entendê-lo, fica difícil lidar com ele corretamente.

São dois erros básicos que costumamos fazer:

– achar que cachorros pensam igual a nós, que eles vivem de acordo com a lógica humana, interpretando suas atitudes como se fossem gente

e

– não entender importância da questão da liderança e de uma hierarquia clara para o cachorro.

A tendência de humanizar os bichos

Seu cachorro se comporta mal? Fique sabendo: o problema é você!

Não é difícil constatar que muita gente humaniza seu cão. Vemos constantemente cachorros com roupa, com lacinhos na cabeça e sendo chamados de filhos e filhas. Amar seu animal como se fosse um próprio filho é uma coisa boa. Aqui não vejo nada demais. O desvio começa quando se passa a achar que não há diferenças entre os filhos caninos e os filhos humanos. E é isso que vemos muito por aí.

Em geral, a humanização de um cão ocorre com as melhores intenções, com gente que age assim por desinformação. Mas isso causa problemas sérios na convivência e é preciso reconhecer essa humanização como uma das principais causas das dificuldades que se anda tendo com o melhor amigo.

Projeção de sentimentos humanos no animal

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Escuto muito as pessoas falando dos próprios cachorros como se eles pensassem e sentissem igual a nós. E, muitas vezes, projetamos neles sentimentos humanos. Veja um exemplo de uma mulher que achava que seu cachorro sentia arrependimento e tinha a consciência pesada depois de aprontar:

A mulher e o marido saíram de casa por algumas horas e deixaram seu cão sozinho. O cão, entediado, começou a buscar algo para se distrair e terminou destruindo uma planta que estava na varanda.

Quando o casal voltou e viu a planta destruída, os dois ficaram zangados com o animal, mas a mulher terminou achando graça, pois o cão correu para um canto e ficou de orelhas abaixadas, o que, para ela, era um claro sinal de arrependimento e de consciência pesada. Ela achou que o bicho sabia muito bem que tinha feito algo de errado, o que não era bem assim.

Veja só, cachorros vivem aqui e agora. Se ele quebrar algo e você brigar com ele horas depois, ele até saberá que você está zangado, mas não entenderá o motivo, já que ele já se esqueceu do que fez ou talvez até saiba ainda que “brincou” com a planta, mas ele não vai ligar uma coisa com a outra.

No exemplo acima, quando a mulher e o marido voltaram e viram a planta destruída, eles se chatearem e foi isso que o cachorro percebeu, já que esses animais são extremamente sensíveis e sabem sempre o que estamos sentindo (eles reconhecem isso em nossa linguagem corporal e até mesmo na química de nosso corpo). Ele sabia que havia um problema no ar e preferiu logo assumir uma atitude submissa para evitar confusão para seu lado. Em momento algum ele se arrependeu, pois nem sabia que havia feito algo de errado.

Uma bronca teria ajudado na hora que ele estava fazendo o que fez. Aí sim ele poderia ligar uma coisa com a outra e entender que não é para “brincar” com aquela planta. Brigar com o cachorro muito depois do ocorrido não faz sentido.

O arrependimento que a mulher achou que viu foi na verdade sua interpretação do comportamento do cão usando parâmetros aplicáveis para humanos. Enquanto o cão só reagiu ao clima agressivo (o casal estava realmente com raiva por causa da planta destruída), a mulher projetou nele um sentimento humano.

Arrependimento significaria que o cachorro tinha consciência de que havia feito algo de errado. O problema é que, se ele soubesse que destruir a planta seria fazer algo de errado, ele nem teria feito isso, pois cachorros costumam seguir as regras quando ele as entende. Se ele não segue uma regra, é então porque ele não a compreendeu, o que tem a ver com sua má liderança, o que será explicado a seguir.

A questão da liderança e da hierarquia

A questão da liderança e da hierarquia

Junto à questão da humanização do animal, a principal causa de conflitos entre humanos e seus cachorros está na falta de compreensão da importância da questão da liderança e da hierarquia para uma boa convivência com seu cachorro.

É essencial entender que cachorros são animais extremamente sociais. Para eles, o grupo (matilha, família) é importante como estratégia de sobrevivência (lobos, os antepassados do cão, são caçadores eficazes porque caçam em grupo).

A questão da hierarquia é crucial para uma boa convivência entre cães e seres humanos. A hierarquia na matilha é essencial para os cachorros, que entendem que qualquer grupo só funciona se cada um tiver um papel claro, bem definido. Para o cão, não existe igualdade de direitos: na escada hierárquica, ele sempre está acima ou abaixo do outro cão, nunca no mesmo degrau. Isso vale igualmente para a sua relação com os humanos.

Seu cachorro se comporta mal-Fique sabendo que o problema é você

Se o humano não compreende isso, ele terá muitas dificuldades com seu animal. E a recíproca é verdadeira: o dono que entender bem a questão hierárquica e aplicá-la em seu dia-a-dia com seu cão, terá muito menos problemas de convivência e terá uma grande facilidade para adestrá-lo.

Na cabeça do cachorro, o grupo é a base de sua existência e, para que o grupo funcione bem, é necessária uma hierarquia clara. Para ele, cada um tem que ter sua posição, cada um tem que ter sua função. É necessário que você interiorize isto: seu cachorro estará sempre abaixo ou acima de você, nunca no mesmo nível. Agora, se ele estará abaixo ou acima, isso é você que decide através de sua postura.

E é claro que, para que essa estrutura hierárquica funcione, o grupo precisa de um líder (o primeiro na hierarquia), que tem todos os privilégios de “chefe” da matilha, mas também todas as obrigações, que seriam, entre outras, tomar as decisões, orientar, proteger e cuidar do bem-estar de todo o grupo.

Seja líder de seu cão

Seja líder de seu cão

Se você não assumir a liderança da matilha, das duas uma: se seu cão tiver um caráter dominante, ele irá tomar a frente da coisa, não pensará duas vezes e assumirá o papel que deveria ser assumido por você. Mas, se ele for um cão de caráter submisso, sem a ambição de ser líder, ele ficará inseguro, se sentindo perdido, sem saber direito onde é seu lugar (paradoxalmente, esses cães podem se tornar extremamente agressivos – por medo e insegurança!).

Sem líder, a coisa não pode funcionar

Costumo dizer que cachorros precisam basicamente de duas coisas: de saber quem é o líder da matilha e entender o que o líder quer dele.

Se você não se comportar como um líder, seu cachorro não lhe verá e não lhe respeitará como tal. E ele fará o que quiser. E se você se comportar como um líder, mas seu cachorro não entender o que o que você quer dele, a coisa também não funcionará.

Na busca de seu lugar na hierarquia, seu cão testa seus limites, provoca, ignora comandos, toma posse do sofá ou mesmo da cama, toma a frente quando chega visita e vai para o portão latir quando a campainha toca, mostrando que ele é o dono da casa e achando que, por isso, ele tem que defender a todos.

Se você aceita isso, para ele você mostra que aceita sua dominância (e sua liderança!) e que ele está acima de você na estrutura hierárquica da matilha. Há muitas histórias de cães que dominam totalmente os donos, que rosnam quando se tenta proibi-lo alguma coisa, que mandam praticamente na casa. Muita gente mal informada até acha o comportamento do cão engraçado, achando que não tem nada demais em o cão subir na poltrona e rosnar assim que alguém chega perto. Alguém pode achar graça disso, mas só até o dia em que a coisa engrosse, quando algum humano achar que deve tirar o “chefão” da poltrona e ser então mordido por ele.

Entenda o que é ser líder da matilha

Ser líder de um cão é mais do que dar ordens ao animal. Cães precisam é de um líder soberano, calmo, que os guie, os oriente e mostre ao cão claramente qual seu lugar na matilha e o que se espera dele. Se você conseguir ser um líder assim, seu cão lhe respeitará.

O bom líder não precisa recorrer à violência para que seu cão lhe obedeça. Jamais se conquistará o respeito de um cão com violência. Ele pode até obedecer depois de apanhar, mas não por respeito. Ele o fará por medo.

Pare e pense: seu cão quer conviver bem com você. E, uma vez que ele entendeu que você é o líder, ele quer obedecer e fazer o que você diz. Se isso não funciona, então você não está se comunicando bem com seu animal.

A hierarquia tem que ser esclarecida para todos os membros da família

Não pense que basta você esclarecer a hierarquia entre você e seu cão. Essa questão tem que ser esclarecida para a família, até mesmo para crianças: é necessário que o cão entenda que ele é o último na estrutura hierárquica. De pouco adiantaria seu cachorro aceitar que você está acima dele e acreditar que, depois de você, vem ele, o que resultaria em um problema de convivência do cão com os demais membros da família.

Reforço positivo

Reforço positivo

Junto à liderança clara, o cão precisa receber do líder um reforço positivo. O cão espera do líder da matilha que ele lhe diga/mostre claramente o que espera, o cão quer saber qual seu papel no grupo. Um líder soberano repreende o cão quando ele se comporta de forma errada (repito: o que se faz sem violência!), mas dá ênfase ao comportamento positivo do cão, dizendo-lhe que era exatamente isso que esperava dele. Isso é importante, pois um cão se estressa muito quando fica todo o tempo sem saber direito qual seu lugar e qual seu papel. Quando o líder dá o retorno positivo, o cão compreende o que o se espera dele, o que faz com que ele relaxe e leve uma vida mais tranquila. E, sabendo o que o líder quer, ele terá o maior prazer em obedecer.

E lembre-se sempre de elogiar seu cachorro quando ele se comportar da forma que se espera dele. Infelizmente, temos o hábito de criticar os erros, mas esquecemos de exaltar os acertos.

Algumas dicas para melhorar a convivência com seu cão

Como dito acima, o cão precisa de liderança clara. O dono tem que ter consciência do efeito que seu próprio comportamento tem sobre o cão. A seguir, algumas dicas para melhorar a convivência com seu animal e fortalecer seu papel de líder:

Quando seu cachorro se comportar de forma indesejada, mostre isso a ele claramente, mas não faça nenhum discurso do tipo “Eu falei para você não fazer isso, seu danado! Você não me respeita? Está pensando o quê? Etc., etc., etc.”. Um líder soberano fala pouco. Brigar com um cão e falar muito quando ele faz algo de errado é dar-lhe atenção, o que ele pode entender como recompensa/retorno positivo. Diga um “Não!” e pronto.

Muitas vezes, ignorar é o castigo mais eficaz. Como dito acima, brigar com o cão, ficar reclamando das coisas erradas que ele faz e não parar de falar quando ele apronta pode ter o efeito contrário do desejado: ele pode entender isso como reforço positivo, já que cachorro adora receber atenção. Ficar fazendo palestras sobre a coisa errada que ele fez é dar a atenção que ele adora receber. Observe bem seu cão. Se ele gosta de ouvir suas “palestras” e curte a atenção recebida, use isso a seu favor: deixe para palestrar e lhe dar essa atenção quando ele fizer as coisas certas e não quando faz o que não deve. Na hora do erro, ignore o cão, sempre que perceber que ele está fazendo o que faz para receber atenção.

Controle a comida: É o líder que decide quando e o que o cão come. Seja disciplinado e não dê comida ao cão o tempo todo e não deixe a comida sempre à sua disposição. Se você não observar isso, o cão não vai levar você sua liderança muito a sério.

Não grite com o cão. Lembre-se que ele escuta muito melhor que nós humanos. Um líder soberano não grita. Líderes histéricos sim.

– Quando passar por um local estreito (por exemplo, por um portão ou porta), não deixe seu cão passar na frente. Em lugares estreitos, quem passa primeiro é o “chefe”! Parece algo banal, mas isso é sério: é assim que o cachorro vê a coisa!

Nunca deixe que o cão determine a direção para onde vocês vão, por exemplo, em um passeio. Se o cachorro puxa a guia, pare e só continue a andar quando ele parar de puxar. Ou mude o sentido, caminhando na outra direção. Se você estiver passeando em lugar seguro, com seu cão sem guia, não permita que ele decida por onde vocês devem ir. Se ele virar para a direita, vire para a esquerda e continue caminhando. Assim que ele perceber, ele virá correndo atrás de você.

– Também nas brincadeiras é o dono que determina a hora de começar e de terminar. Guarde bem o brinquedo preferido de seu cão em um lugar onde ele não possa buscá-lo por conta própria e determine quando ele pode brincar, dando então o brinquedo a ele e tomando-o novamente quando VOCÊ achar que está na hora de parar (nunca espere até que o cão perca a graça e deixe o brinquedo de lado!

– Se você acha que seu cão deve poder subir no sofá, tudo bem, mas é você que determina quando. É recomendável cobrir um canto do sofá com uma coberta (para marcar o lugar “dele” e por uma questão de higiene), permitindo que ele suba somente nesse canto. E é bom, de vez em quando, você mandá-lo descer e se sentar no lugar “dele” para lembrar-lhe que o sofá é seu.

Escolha um cômodo na casa e proíba o cão de entrar. Pode ser um quarto, dispensa, cozinha, banheiro, não importando o tamanho ou a função. O importante é que o cão perceba que você pode tudo e ele só quase tudo.

Seja consequente e disciplinado. Um líder soberano não muda as regras diariamente. O que hoje é válido deveria valer também amanhã. O que hoje é permitido, não deve ser proibido uns dias depois ou vice-versa. Mais uma vez: liderança clara!

Um líder não só dá ordens, mas também cuida dos membros da matilha. Escovar o cão, dar banho nele, cortar as unhas, dar carinho também são coisas importantes para fortalecer o elo e esclarecer a questão da hierarquia. Para o cão, o dono que cuida é um bom líder (por isso, pense bem antes de levar o cão para dar banho em petshops! Quando você faz isso, você abre mão de um momento importante na sua convivência com o cão).

Trate seu cão bem, mas sem paparicá-lo. Não dê petiscos o tempo todo (antes de dar o petisco, dê um comando – o cão gosta de ser recompensado e o recompense com o petisco assim que ele obedecer!). Trate seu cão bem, mas o trate sempre como um cão, um animal, jamais esquecendo de que ele não é gente e tem uma forma de “pensar” e necessidades diferentes da nossa.

Mantenha sempre a calma: Seu cachorro lhe observa bem. Se você fica nervoso, ele percebe isso e pode ficar nervoso também. Ao lidar com seu animal, mantenha então sempre a calma. Nunca é necessário ser agressivo com o cachorro, basta ser claro, firme, mas nunca agressivo, nunca aos gritos e nunca amentrondando o animal. Se você quiser ganhar a confiança de seu cão, mostre claramente a ele seus limites, mas sempre com calma e serenidade.

Seja um bom líder e você perceberá que sua convivência com seu cachorro será bem mais fácil e que muitos dos problemas de comportamento de seu cachorro se resolverão.

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Sobre o autor/a autora

Gustl Rosenkranz
Gustl RosenkranzBlogueiro

Blogueiro. “Escrevo sem luvas porque tocar é importante”.

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