sexta-feira, 5 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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A desumanidade da fome

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A desumanidade da fome – Por Gustl Rosenkranz

Era feriado. Mesmo assim tive de trabalhar muito. Para freelancers, não importam os feriados. Trabalha-se quando é necessário.

Na verdade, só me dei conta do feriado quando vi que a geladeira estava vazia e disse a meu filho no telefone que iria ao supermercado e ele me alertou que estaria fechado. Não tinha nada para comer em casa e continuei trabalhando de barriga vazia, abastecido por uma caneca de café e vários copos de água.

Sou uma pessoa que não precisa comer muito e posso esperar bastante pela próxima refeição. E foi assim também naquele dia. Estressado com o trabalho e sem ter (ou melhor, sem tomar!) o tempo para ir providenciar algo para comer, terminei não comendo nada o dia todo, só gastando energia, sem repô-la, mas sem que isso me incomodasse muito.

A fome veio no final da tarde

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Somente no final da tarde, quando me sentei para escrever algo, mas não pude me concentrar, é que percebi o quanto estava com fome.

Minha cabeça doía um pouco e meu estômago roncava. Resolvi então ir à lanchonete turca na esquina e ver o que eles tinham para oferecer.

No caminho, encontrei um vizinho, que parou para me contar algo. Foi um encontro rápido, já que ele mesmo estava com pressa, mas essa curta conversa me pareceu uma eternidade.

Percebi que eu estava impaciente, mal-humorado e só conseguia me concentrar com muito esforço no que ele dizia. Fui cortês o suficiente, mas comecei a andar devagar, dando a entender que precisava continuar. Nos despedimos e prossegui, guiado por meu estômago, me sentindo fraco.

A fome dos outros, dos muitos outros

Fui à lanchonete, comi, venci a fome e voltei ao trabalho. Só que, ao me sentar, novamente não conseguia me concentrar, dessa vez porque não parava de pensar na fome, não na minha fome, pois tenho a sorte de possuir recursos suficientes para vencê-la sempre que necessário. Normalmente basta ir na cozinha e comer alguma daquelas coisas compradas convenientemente no supermercado ou dar uma saída e comer algo fora.

Eu pensava na fome dos outros, dos muitos outros por esse mundo afora, que não têm a mesma sorte e vão muitas vezes ou mesmo diariamente com a barriga vazia para a cama.

Mais uma vez eu via tão clara a desumanidade por trás da fome e quão perversos temos que ser para permitir que ainda hoje existam pessoas famintas.

Se eu já fiquei mal-humorado, nervoso e fraco depois de somente um dia sem comida, indigna-me imaginar o sofrimento de quem chega a passar dias sem comer nada.

Consumo e desperdício

Pensei também na mentalidade de consumo e desperdício, com as toneladas de alimentos jogadas fora por aqueles que pelo jeito têm mais que o suficiente, e pensei no quanto tudo isso é injusto.

A fome sempre é indigna e desumana

Óregano, fome e carne podre

Recordei-me em um homem que conheci há muitos anos. Eu estava de visita em sua casa e fui com ele fazer compras no supermercado.

Ao chegarmos nos temperos, sugeri comprar orégano e o homem reagiu de uma forma estranha, nervosa, rejeitando minha sugestão e dizendo que não comia orégano de jeito nenhum. Fiquei curioso e perguntei se ele tinha alguma alergia e ele respondeu que me explicaria depois.

No caminho de casa, ele me contou de sua infância pobre, sem recursos. Seu pai ele nunca conhecera e sua mãe teve que se virar sozinha para criar os quatro filhos.

Ele contou que andava com seus irmãos pelas ruas, com os olhos atentos, catando de tudo que pudesse ser reaproveitado e vendido, pedindo esmolas, lavando carros e buscando qualquer oportunidade para ganhar um dinheirinho para ajudar a mãe.

O pior de tudo era a fome

Ele disse que o pior de tudo era a fome, era o sentimento de angústia que ele sentia toda vez que comia alguma coisa, pois comia aquilo sem saber quando comeria novamente. Contou-me da apatia, do sono que sentia e que ia dormir para esquecer que estava faminto, mas que o ronco da barriga atrapalhava. E contou das crises de fraqueza que sentia, com a vista ficando escura, as pernas cambaleando e sua boca produzindo tanta saliva que o fazia babar.

Contou-me depois a história do orégano, do dia em que ele chegou em casa fraco e faminto e viu em cima da mesa um prato coberto, um prato com comida que a mãe havia deixado ali para ele. Não era muito, um pouco de arroz e feijão, batata e um pedaço pequeno de carne, o que para ele já era um luxo.

Sentou-se para comer e estranhou o cheiro da comida. Ao cheirar mais de perto, percebeu que era a carne, que não estava boa. O dia estava quente e o prato deve ter ficado muito tempo ali na mesa. Eles não tinham geladeira.

A carne estava estragada e já cheirava mal.

A carne estava estragada e já cheirava mal. Ele sentia nojo e queria jogar a carne fora, mas a fome era maior e o fez se levantar da mesa e procurar nos armários, achando um pacote de orégano seco.

Ele jogou todo o orégano em cima da carne para disfarçar o cheiro e o gosto e a comeu assim mesmo. Desde então, nunca mais conseguiu comer e nem sequer cheirar orégano novamente.

Uma história bem mais comum do que podemos e queremos imaginar

O mais triste dessa história é que ela é bem mais comum do que podemos e queremos imaginar. Tem muita gente passando fome neste mundo. As causas são diversas, guerra, terrorismo, seca, injustiça social… Mas uma causa comum a fome sempre tem: a indiferença, a nossa indiferença. Sabemos que a fome existe, que ela está aí, que tem gente que sofre e até nos indignamos, mas depois voltamos a pensar se hoje queremos comer carne ou pizza.

Ontem mesmo escutei que a ONU está com dificuldade de arrecadar 4,5 bilhões de dólares até julho para evitar uma catástrofe humanitária na África, onde muita gente está passando fome. 4,5 bilhões que pelo jeito achamos muito para combater a fome, mas que gastaríamos sem pensar duas vezes se fosse para enviar um robô para Marte ou para salvar algum banco da falência. Ou usamos o dinheiro para construir muros e cercas para manter os famintos longe de nós.

Multidão maltrapilha catando comida em tonéis de lixo

Eu era adolescente, descia de ônibus para a Cidade Baixa e observava pela janela a vida lá fora. Paramos em um congestionamento, em cima de um viaduto e eu via lá embaixo o fundo do supermercado Paes Mendonça.

Funcionários empurravam tonéis de lixo para fora, provavelmente para que fossem esvaziados pela coleta. Naquele momento, uma multidão maltrapilha invadiu literalmente o lugar, se apossou dos tonéis e começou a catar comida.

O ônibus prosseguiu viagem, deixando aquela gente faminta para trás, mas aquela cena me acompanha até hoje.

A desumanidade da fome

A fome é indigna, é desumana e é uma vergonha para nós

A fome é indigna, é desumana e é uma vergonha para nós, que nos julgamos seres superiores, que achamos que a raça humana teria algo de racional. É uma vergonha porque não há motivo para ninguém passar fome neste mundo, há recursos suficientes para todos, o que falta é a vontade política de acabar com algo que já deveria ter deixado de existir há muito tempo. E essa vontade política tem que vir de todos nós.

A fome é algo tão perverso e desumano que termina atingindo a todos, ela é um problema de todos, meu, seu, de todos mesmo!

Saber que tem gente passando fome e não fazer nada contra isso seria concordar que milhões de pessoas morram aos poucos, diariamente, que crianças, quando sobrevivem, fiquem marcadas para sempre em seu desenvolvimento, que pais e mães sofram por ver seus filhos indo para a cama de barriga vazia.

Imagino o sofrimento desses pais

Sim, os pais e as mães! Fico imaginando o sofrimento. Nós já ficamos desesperados quando nossos filhos pegam um resfriado bobo. Como deve ser então para um pai ou uma mãe quando vê seus filhos com fome, fracos, apáticos, tendo que comer o que encontra, lixo, restos, qualquer coisa?

É muito fácil criticar pais pobres, dizendo que eles “não deveriam colocar filhos no mundo, se não podem cuidar” e coisas parecidas, mas acho muito mais urgente entender que esses filhos estão aí, esses pais e mães também e que é extremamente desumano permitir que crianças passem fome dessa forma e que seus pais sofram imensamente por isso.

Quem tem fome está sangrando

Repare só: se você visse alguém no meio da rua, ferido e sangrando, você concordaria que, naquele momento, o mais importante não seria discutir o porquê daquela pessoa estar sangrando, mas ajudá-la, pedir socorro, levá-la o mais rápido possível para um hospital. Seria indigno e desumano deixar aquela pessoa ali e não a socorrer.

Pois então, o mesmo não vale para a fome? Uma pessoa faminta não é uma “pessoa que sangra”, que também está correndo risco de vida, que precisa de ajuda urgente?

Combater a fome é também uma questão de inteligência

Outra coisa que deveríamos perceber é que acabar com a fome ou reduzi-la drasticamente nem seria um ato meramente altruísta, pois todos sairíamos ganhando com isso. A redução da fome ajudaria a reduzir também muitos conflitos e qualquer redução da pobreza tem efeito positivo sobre os índices de criminalidade. Um mundo com menos fome seria um mundo mais seguro. Portanto, não é só questão de altruísmo, mas também de inteligência.

Perceber a desumanidade da fome nos tornaria mais humanos e isso poderia ser um bom começo na construção de um mundo melhor.

O que podemos fazer?

Dê comida

Se você ver alguém faminto, dê-lhe algo para comer.

Reduzir os desperdícios

Todos nós podemos começar reduzindo nossos desperdícios, pois eles, além de significar que estamos jogando comida (e dinheiro!) fora, são indecentes, imorais. Como podemos saber que tem gente que faria de tudo por um prato de comida e, ao mesmo tempo, jogar alimentos no lixo?

Os números de desperdício de alimentos no mundo são exorbitantes e é alarmante saber que o que jogamos fora já bastaria para extinguir grande parte da fome no planeta.

Portanto, tenha cuidado para não desperdiçar alimentos. E, se você comprou demais e perceber que vai perder alimentos, passe-os adiante antes de estragar. Com certeza, tem alguém por perto que ficaria muito grato por poder comer aquilo que você sabe que não vai precisar. E proteste quando souber de supermercados que jogam alimentos ainda consumíveis no lixo, ao invés de doá-los a alguma instituição de caridade.

A fome não é exigente: basta contentá-la; como, não importa.
– Sêneca –

Não julgar

Outra coisa simples, que qualquer um de nós pode praticar sem maiores esforços, é simplesmente não julgar. Quando alguém lhe disser que está com fome e lhe pedir comida, não julgue a pessoa e não tente culpá-la por sua situação. Você tem até o direito de negar a ajuda (ninguém é obrigado a nada!), mas não lhe compete julgar quem a pede. Repito: uma pessoa faminta é como uma pessoa sangrando. Se ela está com fome, deveria ser ajudada sem maiores complicações. E quem está com fome quer comida, não sermão.

Doações

Cada um de nós pode também ajudar a combater a fome através de doações, direta a quem não tem recursos, ou através de instituições que trabalham nessa área.

Só não seja indiferente diante da fome. Faça sua parte.

Nossas escolhas políticas

Agora, se queremos realmente acabar com a fome ou pelo menos reduzi-la de forma significativa, nossa maior contribuição está em nossas escolhas políticas. Nosso voto é nossa principal arma contra a pobreza e a fome.

Podemos ajudar muito quando damos algo de comer a alguém ou quando doamos alimentos, mas podemos ajudar muito mais quando escolhemos governantes realmente preocupados com os problemas enfrentados pela população e não governantes somente envolvidos com a defesa de interesses próprios ou dos grupos que eles representam.

Não deveríamos votar por simpatia ou ideologia, mas ser simplesmente pragmáticos e escolher aqueles governantes que realmente pareçam interessados e dispostos a praticar uma política que fomente a justiça social e reduza as desigualdades. Acho que é aqui que carregamos nossa maior responsabilidade.

A fome do mundo é um problema político. Então é com política que podemos e devemos resolvê-lo.

Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.
– Mahatma Gandhi –

O direito de se alimentar é um direito fundamental
O direito de se alimentar é um direito fundamental de todos.

Publicação original: Escritos de Gustl Rosenkranz

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
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