quarta-feira, 3 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
Início Comportamento Do fruto proibido aos movimentos feministas: ensaio sobre a transgressão feminina

Do fruto proibido aos movimentos feministas: ensaio sobre a transgressão feminina

- Caminhos recomenda -
Por João Neto Pitta

”A mulher é um pecado!” – disse um poeta barroco.  Toda as suas formas e feições: a delicadeza de seu rosto, o compasso de suas pernas, o desenho de seus lábios, tudo isso, é, para nós homens, a representação do pecado; antes cegos, do que a revelia de um corpo que nos leve ao erro. Gregório de Matos era sucinto ao delinear a sua poesia, o corpo e o espírito em luta constante, sobressaltando-se ao sentimento inabalável da paixão e, ao mesmo tempo, sucumbindo à santidade do espírito.

A palavra pecado e mulher namoraram durante muito tempo, tanto por personificarem aquilo que o homem deseja de forma profana, quanto por desafiar as limitações que foram-lhes impostas ao longo dos tempos. No primeiro caso, o homem prefere a cegueira do que o desejo absurdo, no segundo ele aponta o desvio feminino como erro a ser apedrejado e dizimado da humanidade.

A mulher, na narrativa judaico-cristã, fundou o pecado na medida em que abocanhou o fruto proibido. O presente que Deus deu a Adão para desnorteá-lo da solidão, trouxe-lhe o pecado. A mulher já aparece como transgressora, e isso lhe custaria caro. Paulo advogou (provavelmente em Romanos) que, por conta disto (o fato de ter pecado primeiro), a mulher deverá ser submissa ao homem.

Hesíodo narra que Pandora era um presente dos deuses aos homens. Uma criatura divina com um olhar atraente e sedutor, porém, feita pelos deuses com um intuito de se vingar dos homens, tratava-se de algo belo por fora e horrendo por dentro. A figura da mulher já era associada à sedução, à beleza e ao engano. Pandora trazia uma caixa em suas mãos, e nela havia todo o caos que circunda o nosso mundo. Seria então – em uma interpretação mais distante talvez – a mulher um presente ” de grego” aos homens?

- Publicidade -


Na peça de Eurípides ”Medeia”, o personagem Jasão, em algum momento, chega a dizer que ”Se houvesse outra maneira de ter filhos, que não precisasse da participação da mulher, os homens estariam livres dessa praga”.  A posição da mulher era restrita à reprodução e às atividades domésticas; sendo, portanto, necessário aos homens, sobretudo no que concerne ao desenvolvimento de uma família.  Medeia, na peça supracitada, fora traída por Jasão, conquanto, não cedeu ao desatino, decidiu vingar-se e a sua primeira atitude foi conquistar o coro, que era formado por mulheres. Disse Medeia:

Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras.  De início, temos de comprar por alto preço o esposo e dar, assim, um dono a nosso corpo – mal ainda mais doloroso que o primeiro. Mas o maior dilema é se ele será mau ou bom, pois é vergonha para nós, mulheres, deixar o esposo (e não podemos rejeitá-lo).

E prosseguiu falando :

Inda dizem que a casa é nossa vida, livre de perigos, enquanto eles guerreiam. Tola afirmação! Melhor seria estar três vezes em combates, com escudo e tudo, que parir uma só vez!

Medeia conseguiu conquistar o coro, que via nela, além de uma certa identificação, uma forma de lutar contra o sistema opressivo que se apresentava.  Pela maneira como ela conduziu seu discurso, pontuando as limitações que são impostas ao sexo feminino e denunciando esta situação injusta, Medeia simboliza, também, parte dessa luta que mobiliza várias mulheres: ”O Feminismo.”

O Feminismo nasce como forma de contrapor essa ótica unilateral, esse discurso unívoco de mundo, no qual o homem parece ser o único narrador, e a mulher aparece apenas de forma secundária, como um ”presente” ou algo que serve apenas para satisfazer as necessidades masculinas. A mulher passaria a ser um sujeito e não uma propriedade.

Apesar de o movimento supramencionado ter conquistado vários avanços no que concerne à igualdade (levando em conta que tal princípio ainda não foi conquistado), é imprescindível lembrarmos que a imagem da mulher e o pecado não se dissociaram totalmente da perspectiva masculina, pelo contrário, ela passa a ser vista maculada no próprio movimento. A mulher que urde contra o sistema patriarcal é caracterizada como ”mal amada”, feia e como transgressora (no pior sentido) – a palavra pecado é substituída – porém, continua representando a mesma coisa. A mulher aparece como iníqua na medida em que se posiciona como representante do movimento e o movimento passa a ser encarado como uma forma de desvirtuar a mulher de seu papel feminino.  Papel que, curiosamente, foi criado pelo próprio homem.


Quando a filosofa Simone de Beauvoir disse que ”Ninguém nasce mulher, torna-se” , ela quebra completamente essa perspectiva de um papel feminino pré-estabelecido (para saber mais, procure o outro texto que eu escrevi ”Ninguém nasce mulher, torna-se: Simone de Beauvoir e o papel da mulher na sociedade”).  E logo após isso, Simone, também se une a nossa lista de mulheres ”pecadoras”.

Poderia comentar o nome de várias outras mulheres que lutaram contra a misoginia – palavra pichada em um muro de sangue –  no entanto, deixarei para um próximo texto.

A evolução histórica da figura da mulher ao longo do tempo é cheia de reviravoltas e conflitos que perduram até hoje. O Feminismo desperta amor e ódio, entre os homens talvez mais ódio do que amor, afinal, uma mulher que trabalha e que é autônomo deixa de viver para o homem e passa a viver para si.  O casamento deixa de ser o motivo de se viver e passa a se tornar uma etapa da vida.  A mulher foi escarrada por comer o fruto proibido, foi condenada por trazer uma caixa que trouxe o caos ao mundo, foi queimada na idade média por ”bruxaria” e hoje é julgada por conduzir um movimento que brada contra o patriarcado (que a condenou a tudo isso).

Percebemos que há um histórico que liga a mulher ao pecado, não por outra coisa, mas por viver sob o auspício de uma sociedade severamente machista que limita as suas formas de expressão e, com isso, apagam um pouco de sua humanidade. A importância do feminismo está em apresentar uma contra-narrativa, um golpe contra um sistema unívoco, um uivo contra a opressão. Feministas de todo o mundo, uni-vos.

- Publicidade -

A autora/o autor:

Comente via Facebook

Latest Posts

Muitos sobreviverão à Covid 19, mas permanecerão mortos por dentro

Muitos sobreviverão à Covid 19, mas permanecerão mortos por dentro. E o pior é que teste médico algum é capaz de diagnosticar isso.

Ser gay é falta de gás carbônico

A teoria de que para ser gay nasta respirar pouco gás carbônico, com exemplos concretos e muita ironia. Vale a pena a leitura, mais ainda a reflexão.

Fique com alguém que você aceite. Ninguém muda ninguém.

Aceitar não quer dizer que você deve ser permissivo com aquilo que te faz mal. Significa que você deve analisar bem aquilo...