terça-feira, 2 junho 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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Ninguém nasce mulher, torna-se mulher: Simone de Beauvoir e a Posição da Mulher na Sociedade

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Por João Neto Pitta

”Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Essa frase é capaz de arrepiar a espinha dorsal de qualquer conservador, de maneira tal que se ergue um muro que impossibilita o real entendimento do que de fato é expressado nela. Vou tentar ser o mais claro possível em elucidar essa questão.

A feminilidade é um código de conduta, logo não é algo imanente, portanto, é muito mais uma construção social do que um determinismo biológico. A ideia de submissão feminina, da escolha de uma cor que a represente (rosa), de uma roupa apropriada para o seu sexo (saia, blusa, vestido), da potencialidade ”inerente” de lavar louça; são percepções cauterizadas e condicionadas pela tradição e não pelo código genético.

Ora, tudo que é cultural, tradicional, é também passível de mudança. O processo de construção da mulher, do feminino é calcado através da aprendizagem e repetição de gestos: Quarto rosa, brinquedos em formas de móveis de cozinha, etc.

É importante ressaltar também que a frase supramencionada revela um tom existencialista, no qual a essência vem depois da existência – o que possibilita ao ser humano construir o seu sentido através das suas próprias escolhas.

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Certamente ninguém nasce com a vida traçada. Negar isso é incorrer no erro do personagem Pangloss – do livro ”Cândido” do Voltaire – que acreditava que no mundo tudo cumpria a sua essência e, dessa forma, o nariz é feito e bordado para sustentar o óculos, as pedras existem para construirmos castelos; e as mulheres, concluo a partir de desse pensamento, são feitas para lavar a louça.

Como diz Étienne de La Boétie: a servidão voluntária é um hábito, consequentemente não é algo natural, mas naturalizado, construído, submetido, assim como a posição da mulher na sociedade:

“A primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.”

O papel da mulher na sociedade sempre foi um Tabu, já que a sua posição, desde o prelúdio da humanidade, foi atribuída a propriedade privada, como bem colocou Friedrich Engels em seu livro ” A origem da família, da propriedade privada e do Estado”. Posto isso, é imprescindível lembrarmos de um dos mandamentos bíblicos:

“Não cobiçarás a casa de teu próximo, não desejarás sua mulher, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo.”

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir – Foto: Liliane Ferrari (Flickr)

A partir deste pensamento podemos perceber claramente a colocação da mulher como propriedade privada, tendo em vista que todos os demais estão nesta mesma posição: sob o domínio do homem. Paralelamente a isso, na antiguidade, sobretudo na Roma Antiga, a mulher pertencia a seu pai até que se casasse, daí, então, passaria a pertencer ao seu marido. O próprio ritual do casamento reflete este tradicionalismo: a mulher é levada pelo seu pai até o seu esposo, representando, dessa forma, a sua passagem de uma jurisdição à outra.

Os tempos mudaram, não há duvidas quanto a isso, porém, ainda há resquícios de um pensamento jurássico e essencialista que pretende criar regras e códigos de conduta para definir o feminino. Em contraponto a isso, o conhecimento – ou como dizem algumas feministas – a emancipação surge para promover uma luta contra os excessos de uma tradição que fomenta a dominação e  a intolerância. A  luta é necessária não apenas para abalizar e desconstruir conceitos, mas também para erigir um mundo pautado na igualdade e na boa convivência, tornando-o um lugar mais auspicioso para a existência dos seres que o habitam, sejam homens ou mulheres, afinal, antes de qualquer definição limitadora, somos todos humanos.

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