quarta-feira, 12 agosto 2020

“Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados”

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, de servir gente folgada, de nutrir amizades duvidosas, para que possamos percorrer somente os encontros verdadeiros.
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Orgulho do Brasil? Um desabafo!

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Foi caminhando pelo Brasil afora que vi muita coisa que mexeu comigo: gente dormindo em praças no Sul do país, passando frio, gente sendo linchada por justiceiros, sem ser julgada por um tribunal, sem direito à defesa, gente sofrendo em corredores de hospitais e tantas outras coisas absurdas que presenciei, li, escutei que não pude mais me segurar e escrevi este texto como desabafo, principalmente por ter sido atacado ao expressar minha indignação, atacado por gente que rejeita qualquer crítica à atual situação do Brasil.

Com certeza vou ser chamado de vira-lata ou coisa parecida. Sim, por favor, me chamem disso, ou de coisa pior! Sim, me insultem, me ofendam, me ameacem, comentem isso aqui enchendo tudo de palavrões, pois assim estariam me fazendo um favor e confirmando aquilo que quero abordar aqui neste texto: a falta de civilidade do povo brasileiro e um orgulho besta que mais atrapalha que ajuda!

É triste e me assusta o que vejo: um patriotismo idiota, um bairrismo sem pé nem cabeça, gente que ataca qualquer um que aponte o que está acontecendo com nosso país, qualquer um que mostre que o Brasil está entregue às traças, aos ratos, aos corruptos, aos bandidos.

Foto: noticias.r7.com
Foto: noticias.r7.com

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Não, não se pode criticar. O povo vive e sobrevive bem ou mal em um ambiente de enorme injustiça social, de homofobia, de racismo, de fanatismo religioso, de violência, mas temos que bater palmas, sambar e rebolar, fazendo de conta que está tudo bem, bradando um orgulho débil, mas, me diga, orgulho de que mesmo?

Orgulho das praias que já estavam lá antes de nós e não são mérito nosso? Ou orgulho da natureza que estamos destruindo descaradamente para que os barões da soja e do gado se espalhem mais e mais? Ou será o orgulho do clima maravilhoso que está mudando como o clima de todo o mundo porque só fazemos discursos bonitos sobre sustentabilidade e ecologia, mas sem mudar realmente nossas atitudes?

Será que temos orgulho de saques diários nos cofres públicos por políticos corruptos e egoístas, que só pensam em encher o próprio bolso, rombo na Petrobras, enriquecimento ilícito de ex-presidentes, senadores, deputados e seus comparsas e capangas? Ou será que devemos ter orgulho de gente dormindo nas praças e embaixo de viadutos, de pessoas morrendo em corredores de hospitais, de regiões inteiras sem corpo de bombeiros, sem atendimento médico, sem escolas, sem nada?

Orgulho de um sistema educacional deficitário, com jovens cursando o nível médio e acreditando que Obama é um terrorista, que o Canadá tem fronteira com o Brasil e que Florianópolis é uma praia do Rio de Janeiro (coisas que andei realmente escutando frequentemente pelo Brasil!)?

Foto: www.defensoriapublica.mt.gov.br
Foto: www.defensoriapublica.mt.gov.br

Sim, eu peço a vocês, brasileiros orgulhosos, que me expliquem do que vocês têm orgulho, pois, confesso, eu não entendo. Digam-me urgentemente do que é que vocês têm tanto orgulho assim, ao ponto de linchar virtualmente (ou mesmo realmente) qualquer um que tenha a coragem de dizer que esse país há muito tempo já virou uma casa da mãe Joana, onde se faz o que quer, ou melhor, nem todo mundo, na verdade alguns, que fazem o que querem, passando por cima de qualquer um que seja mais fraco, driblando, torcendo e encaixando a lei e o direito a seu favor, mas desrespeitando qualquer direito do cidadão comum, que só paga, só trabalha, só sofre para manter um sistema que está podre de tão corrompido.

Foto: Wikipedia
Foto: Wikipedia

Ah, temos orgulho do nosso povo pacífico, alegre, cheio de calor humano, hospitaleiro e solidário…

Mas, ora, isso é um mito, pois na verdade nosso povo anda é por aí fazendo justiça com as próprias mãos, linchando, matando aqueles que eles julgam ladrões, sem que haja um processo na justiça, sem que a culpa seja provada, sem que qualquer direito básico do ser humano e do cidadão seja respeitado, fazendo-nos voltar à idade média, ou pior: à idade da pedra, literalmente!

Não nos comportamos na verdade como trogloditas, que xingam, ofendem, perseguem pessoas em redes sociais, pronunciando selvagemente nosso veredicto, sem qualquer acanho, sem qualquer respeito, sem qualquer sentido? Não pedimos ardorosamente que adolescentes sejam enfiados em cadeias com bandidos adultos, ou pior ainda: muitos de nós não andam por aí pedindo a pena de morte para eles, tentando nos isentar de nosso fracasso como sociedade, já que fomos nós mesmos que permitimos que a coisa chegasse onde se encontra?

Sentimos orgulho de viver em um pais onde valem um peso e duas medidas, onde quem tem dinheiro tem todos os direitos, mas quem nada tem de nada vale?

Haitianos no Brasil - Foto: noticias.terra.com.br
Haitianos no Brasil – Foto: noticias.terra.com.br

Supomos sermos um povo tão humano e negamos o racismo, mas ninguém notou ainda que a publicidade na televisão brasileira é praticamente branca, apesar de mais da metade de nosso povo ser negra ou mestiça?

E alguém sente realmente orgulho ao saber que ainda hoje, em pleno século XXI, no Brasil, homossexuais ainda são perseguidos e discriminados, alguns até apanham e são assassinados por um povo que quer se apresentar como pacífico, justo e acolhedor? Ah, sim, acolhedor… Enchemos o peito para dizer que o povo brasileiro é hospitaleiro, recebemos os “gringos” de braços abertos, mas não só aqueles “gringos” que queremos, os alemães, franceses, americanos, italianos, enfim, aqueles que vêm com euros e dólares no bolso, mas tratamos mal os latinos, haitianos e todos aqueles que realmente precisam de nosso acolhimento e nossa hospitalidade?

Li que uma atriz teve que pagar duplamente imposto sobre seu computador em um aeroporto brasileiro devido a um erro de um funcionário da Receita Federal. A mulher ficou uma fera e reclamou. E com razão! Eu também teria reclamado e ficado chateado, principalmente por estar acostumado com outras realidades fora do país, por saber que é possível que se trabalhe corretamente e que uma sociedade funcione sem extorquir seus cidadãos. Mas sei que eu, como ela, também seria xingado por um bando de ignorantes, bairristas, limitados, que me chamariam também de vira-lata, que me mandariam sair do país, que me ofenderiam por dizer a verdade, por não enfiar o rabo entre as pernas e engolir a pílula colorida da ilusão de quem acha que está fazendo algum favor ao Brasil ao negar a realidade e tapar o sol com a peneira.

Foto: atitudecompassiva.blogspot.com.br
Foto: atitudecompassiva.blogspot.com.br

Estou cansado de ver fotos que mostram pobreza, gente catando lixo e concorrendo com urubus, violência policial, condições subhumanas ou mesmo desumanas de vida, de ler artigos sobre corrupção, de ver gente roubando o povo brasileiro, de ver que a vaca já foi para o brejo há muito tempo, mas ver, ao mesmo tempo, gente cuspindo farinha e dizendo (parecendo que até mesmo acredita!) que o Brasil seria o melhor lugar do mundo para se viver. Sim, e talvez fosse, mas para isso muita coisa teria que mudar.

GAYS SERÃO SALVOS PELA (DES)GRAÇA - Foto: setimoportal.wordpress.com
GAYS SERÃO SALVOS PELA (DES)GRAÇA – Foto: setimoportal.wordpress.com

Em primeiro lugar, deveríamos parar de confundir AMOR com ORGULHO e BAIRRISMO, deveríamos compreender que se iludir e fazer de conta que está tudo bem nada tem a ver com amar seu país. Quem ama, se preocupa, quem ama tenta mudar.

E precisamos urgente de educação, mas não só de ABC e tabuada, mas de uma educação universal, que ensine o povo a pensar. E a votar. E a cobrar dos governantes que façam aquilo para que foram eleitos: buscar o bem da nação e servir ao povo!

Também precisamos de mais humanidade, de mais discernimento, de mais compaixão, de uma solidariedade real, de mais respeito pelos direitos de cada um, sempre, sem exceções, sem propina, sem furar filas, sem tentar tirar vantagens e sem ficar dando qualquer “jeitinho” que seja.

Pronto, estou aqui, dou minha cara a tapa, me xinguem, me insultem, me chamem de vira-lata, mas também cresçam, fiquem adultos, larguem os mitos e as lendas, comecem a fazer sua parte, arregacem as mangas e vão para as ruas cobrar seus direitos, ao invés de se esconder atrás de um perfil na internet para ofender quem tem a coragem de pensar diferente.

Eu amo o Brasil, amo muito a terra onde nasci, mas gostaria de poder sair na rua sem medo de ser assaltado, gostaria de poder dar de frente com a polícia sem temê-la, gostaria de ter um transporte público decente, gostaria de poder mandar meus filhos para uma escola pública, ao invés de ter que pagar fortunas a escolas particulares, que nem realmente boas são.

Gostaria de poder ficar doente sem medo de terminar morrendo em corredor de hospital, de saber que o Congresso Nacional toma decisões para o bem do povo e não para beneficiar alguns grupos ou alimentar o fanatismo religioso de quem quer que seja e que o governo aplica essas decisões sem encher os bolsos dos próprios governantes.

Se você não quer nada disso e prefere ficar aí olhando para o próprio umbigo, orgulhoso de tão pouco, sem nada fazer ou pelo menos dizer para mudar a situação, só resmungando, xingando e reclamando de quem fala o que tem que ser dito, então me diga honestamente: quem de nós dois é aqui o “vira-lata”?

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Gustl Rosenkranzhttps://gustl-rosenkranz.de/
Blogueiro apaixonado por palavras, viciado em escrever, sem luvas, tocando no assunto, porque gosta e porque precisa.
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